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“Dizei aos desalentados de coração: Sede fortes, não temais. Eis o vosso Deus. A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem e vos salvará.” Is 35.4.
O capítulo anterior de Isaías proferia grande juízo sobre Edom. Inimigo de Israel em várias oportunidades, Edom tem o seu destino comparado ao de Sodoma e Gomorra (1).
Já o verso de hoje, encontra-se no capítulo 35, onde há um contraste, se o anterior falava da destruição de Edom, aqui fala sobre o florescimento do deserto do Sul. Uma promessa futura, dupla a Judá: salvação de seu remanescente que ainda iria ao cativeiro; florescimento do deserto onde Edom ainda se encontra, fechando (no verso 10) com um verso igual a Isaías 51.11 - capítulo inteiro que adverte aos exilados a não terem medo, pois o braço do Senhor os tirará da escravidão, conforme profetizado.
Por que não temer? 1 porque o Senhor nos defende; 2 porque nossos inimigos são na realidade inimigos dEle; 3 porque devemos confiar mais nEle do que no que vemos, ou em nós mesmos.
Aplicação: Diante do sofrimento e da opressão, diante da injustiça e da perseguição; naturalmente o homem tem duas reações: ou reage, e tenta impor a força da “sua própria justiça” e o “seu direito”; ou se acovarda, se torna depressivo e conformado, aguardando o que parece ser a única salvação – a morte. Deus nos manda agir de outro jeito, de uma maneira equilibrada e temente a Ele. Nos manda não temermos. Manda-nos ser fortes.
Mas não sair a luta, pois é Ele que nos defenderá. É Ele quem nos salvará, não nossos esforços, nossos jeitinhos, nosso merecimento, ou ainda aplicação da força em justiça própria. Encontramos no Novo Testamento, Jesus chamando de benditos os humildes, os que choram, os mansos, os que estão sedentos por Justiça (2). Suas promessas são sempre: serão algo, alcançarão, herdarão. Ações onde o homem é passivo já que o Senhor é nosso galardoador. O problema é aprender a ser passivo diante da Soberania salvadora do Senhor.
Devemos com muita oração e sabedoria (peça sabedoria ao Senhor, conforme 1Rs 3.5-12 e Tg 1.5-8) encontrar o equilíbrio entre a fé e ação. O esperar em Deus, por vezes envolve ações práticas. Não que possamos ajudá-lo, pois, sempre que tentamos algo assim, acabamos nos atrapalhando. Mas os “desalentados de coração” devem ser fortes. Se estiver vivendo muita pressão, resista! Se for injustiça, busque os meios legais, onde estes travarem entregue ao Senhor, pois Ele se chama Deus de impossíveis. Se estiver sendo perseguido busque força no Senhor, se necessário seja forte e agüente algumas situações. Se estiver sofrendo reaja. Levante sua voz, não em murmúrio, mas em oração, busque o glorificar o Nome do Senhor na sua vida – não esqueça de que Jesus glorificou o nome do Senhor na vida, nos milagres, no sofrimento e na morte, e na ressurreição! Aqui encontramos o outro lado do equilíbrio, se ora temos de agir, ora temos de ter fé em Deus, aguardar e saber que Suas promessas são irrevogáveis, não importa o quão difícil é o seu problema. Cito Tozer: “Nunca se defenda. Todos nós nascemos com o desejo de defender-nos. E caso insista em defender a si mesmo, Deus permitirá que você o faça. Porém se você entregar sua defesa a Deus, então Ele o defenderá. Ele disse a Moisés certa vez: ‘Mas, se diligentemente lhe ouvires a voz e fizeres tudo o que eu disser, então, serei inimigo dos teus inimigos e adversário dos teus adversários (3)’ (...) Não tenho de lutar. O Senhor é quem luta por mim. E Ele certamente fará o mesmo por você (4).” A vingança, a retribuição vem dEle, por Ele e para glória dEle. Nossa parte é ser forte, não temer e aceitar a Sua salvação (5) com amor e esperança, aguardando o momento de alegria eterna (6).
Referências:
(1) Isaías 34. 9-17;
(2) Mateus 5.1-16;
(3) Êxodo 23.22;
(4) A W Tozer – Cinco Votos para Obter Poder Espiritual – Ed dos clássicos, p. 22-23;
“Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam.” Filipenses 3.17 (ACRF)
Em se tratando de teologia, a renovação proposta pela TMI me agrada. Padilla enumera três pontos para uma renovação contextualizada da teologia que eu resumo (1): Sua base é a Palavra de Deus (esta tem primazia sobre o contexto); o contexto desta teologia deve ser a situação histórica concreta, diferente da teologia feita importada ou da feita em gabinete cheia de rótulos e “achologias”; o propósito desta teologia (como deve ser de toda e qualquer saudável) é a obediência ao senhorio de Jesus, sendo esta funcional, realizando a função e propósito a que fomos comissionados. Há uma tensão natural em todo projeto que se envolva com Ação Social e na TMI isto não é diferente. Mas esta propõe uma saída. Kivitz clama para que esta tensão fique na “poeira da história” e lembra que devemos redescobrir que servir a Deus e ao próximo são sinônimos (2). Para Padilla: “Toda a necessidade humana pode servir como ponto de inserção da mensagem do evangelho na vida das pessoas ou grupos humanos. Consequentemente, não há regras fixas quanto ao que vem primeiro, a evangelização ou o serviço (3).” O testemunho cristão fica mais coerente quando a maneira de se levar salvação não segue as regras rígidas e a ênfase na pregação se une com a obra social e vice e versa (isso não significa o prejuízo de uma ortodoxia). Mandamentos como os de Tiago, sobre o cuidado e amparo de órfãos e viúvas, e com os necessitados de roupas e alimentos tornam-se mais claros (4), analisados nesta perspectiva de amor ao próximo (não só aos cristãos) como a si mesmo (5).
A ação social deve ser prática e o serviço cristão deve ser uma profecia prática de um futuro melhor, como afirma Kivitz, isso é alcançado através de atitudes “promotoras da justiça integral que sinaliza o reino eterno e atrai o coração do homem ao Deus que, em Cristo, redime, liberta e transforma. Nesse sentido, o serviço cristão é profético (6).” Devemos priorizar o alvo da obra redentora de Cristo – o ser humano. Cópias de prédios, mega-templos inspirados nos modelos norte-americanos, canais de TV e passeatas entre outras obras de elevado ônus, não podem consumir recursos tanto humanos quanto financeiros em detrimento a ajuda social. Kivitz faz um importante alerta: “o serviço será a resposta cristã capaz de justificar a existência e permanência da Igreja na sociedade. Chegará o tempo em que a ociosidade dos templos evangélicos será imperdoável. O pecado que as comunidades cristãs cometem hoje, ao mobilizarem seus recursos para servir apenas o seu público interno, será o algoz de amanhã (7).” Padilla pode complementar quando afirma que: “O ministério integral se ajusta à situação local e estimula o aproveitamento de recursos humanos e econômicos locais (8).”
Volto a frisar, como um simpatizante da ortodoxia reformada que a formação de uma teologia nacional, e ou o aproveitamento da Teologia da Missão Integral (TMI), para que uma ou outra possa auxiliar uma Reforma nacional, tornando a práxis brasileira mais bíblica e no centro da vontade de Deus, não significa um abrandamento, ou uma diluição da ortodoxia. Pelo contrário, para uma prática correta (ortopraxia) faz-se necessário uma teoria correta (ortodoxia), ao invés do reducionismo da missão cristã, que mais se assemelha com um catequizar jesuíta, ou no outro extremo uma “porta da esperança gospel”. Tanto Padilla, quanto Kivitz, ou ainda Sanches nos lembram de um mote do Primeiro Congresso Internacional sobre Evangelização Mundial (Lausanne I, 1974) que afimou: a missão da Igreja é levar o Evangelho todo, para o homem todo. Se as ações práticas para que toda a missão em uma visão de Reino gera visibilidade e mostra que o amar ao próximo é mais do que palavras, “a tarefa do evangelista na comunicação do evangelho não é facilitar, a fim de que as pessoas respondam positivamente, mas esclarecer (9)”. Ou seja, a mensagem proclamada deve ser bíblica, corretamente anunciada, mas seu anúncio carece de acompanhamento de ações que avalizem o amor pregado.
O grande problema da TMI consiste em falta de material escrito e constante ataque movido por interesses escusos como os feitos pelo Movimento de Crescimento de Igreja – MCI e pela Teologia “pragmática” da Prosperidade (TP), que priorizam números, e não qualidade, sendo infelizmente o modelo abraçado pela grande maioria das igrejas nacionais, além dos ataques feitos pelos ortodoxos estéreis em seus gabinetes. Além de Orlando Costas - editoras, acordem, não há um livro deste homem em português (10), Samuel Escobar e René Padilha, pouquíssimo se conhece ou se divulga. Devemos festejar e prestigiar o lançamento do livro Teologia da Missão Integral, da Regina Sanches (11), sendo um dos únicos materiais de pesquisa brasileiro publicado.
De igual modo, há um movimento que me chama a atenção e quero ler mais sobre o tema, e observar mais seu desenvolvimento, que é o da Reformissão do qual acabei de adquirir o livro (12), que prega um cristianismo mais relevante, mas sem comprometer a ortodoxia. Há bons trabalhos sobre a mesmo ideia que tenho usado no decorrer do texto: Sempre se Reformando do presbiteriano Shirley C. Guthrie, Incômodo do Marco André, Quebrando paradigmas do Ed René Kivitz, Teologia da Missão Integral de Regina Sanches, Missão Integral e Servindo com os Pobres na América Latina do René Padilla. Mesmo alguns sendo estrangeiros, suas observações servem para instigar o pensamento sobre formas de ser relevante, sem comprometer o conteúdo da mensagem como acaba acontecendo com a Igreja Emergente Liberal e o MCI e a TP.
Creio ser necessária uma teologia que oriente nossa prática abaixo da linha do Equador, que seja pensada aqui. Lehmann, citado por Guthrie, diz que: “o Deus dos cristãos é aquele que se tornou um ser humano, por amor aos seres humanos, para tornar e manter humana toda a vida humana (13).” Nada mais integral que esta ideia.Nada mais lógico que trazer o ensino bíblico, nesta perspectiva ao nosso contexto. Devemos sem limites voltar a nos preocuparmos com o alvo da salvação alcançada através de Cristo – a vida humana e seu viver. Devemos abandonar o “aculturismo” e o antropocentrismo (que está presente desde as músicas em primeira pessoa, até nossa relação egoísta com Deus). Barbosa observa que: “o encontro com o Deus triúno é a conversão radical dos nossos relacionamentos, transformando a natureza corrompida de nossas famílias e igrejas em verdadeiras comunidades onde cada pessoa é nutrida e amada com respeito, valor e identidade próprios de cada um. (14)” Nada mais integral que o respeito ao ser humano completo, e a sua convivência sadia em comunidade. Soa-me mais parecido com a vida em abundância (15), quando o “eu se transforma num glorioso nós (16)” em Cristo, com Cristo e com o próximo e para isso não preciso ser “amigo do mundo”, mas importar com as pessoas que habitam nele da mesma forma que Jesus se importou.
Devemos lembrar o valor e a dignidade da vida humana, pois se esta é importante para Deus ao ponto de enviar Seu Único Filho por amor, deve receber igual importância de nossa parte. Não podemos fazer uma missão e evangelização desencarnada, como denuncia Padilla. Diz ele: “(a evangelização) estava dirigida para a salvação da alma, mas passava ao largo das necessidades do corpo. Ela oferecia reconciliação com Deus por meio de Jesus cristo, mas deixava de lado a reconciliação do ser humano com o seu próximo, que se baseia no mesmo sacrifício de Jesus Cristo. Ela (...) omitia toda e qualquer referência a justiça social enraizada no amor de Deus pelos pobres (17).” Uma ideia interessante no texto de Guthrie, é que podemos reconhecer a presença de Deus, no qual os cristãos crêem, nas pessoas quando estas protegem a dignidade e o valor especialmente da vida humana indiferente de sua cor, raça, sexo, amizade, se digno e merecedor ou não a nossa vista (18). Isso é também evangelizar. Como disse Francisco de Assis:"Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras." , ou ainda como ouvi de Kivitz: "Deus não é um solucionador de problemas. É um solucionador de pessoas. Deus não prometeu fazer nossa vida melhor. Prometeu nos fazer homens e mulheres melhores: semelhantes ao Seu Filho.” E Seu Filho nos deixou o mandamento e exemplo de amar e lutar pelo bem-estar do próximo. Assim nós mostramos que nos tornamos melhores.
Concluo esta série afirmando: Urge uma reforma na Igreja brasileira. Nas palavras de Padilla: “A igreja não é um clube religioso ultramundano que organiza excursões ao mundo para ganhar adeptos mediantes técnicas de persuasão (19).” Antes ela deve ser um agente de reconciliação que leva não só a mensagem das Boas Novas, mas age para minimizar a degradação do mundo (Evangelho completo). Desde o ensino básico (abolindo ostracismos, preconceitos e dualismos entre santo e profano); como a ação, devemos ser bíblicos, desempenhando um ministério diaconal aos moldes de Jesus – o maior (Senhor e) Servo (20). Uma mudança do pragmatismo exacerbado a busca de resultados (que se resumem a números e prédios), passando a um Evangelho de amor. Amando sem interesse em números, e mesmo que sem as pessoas se converterem. “A missão cristã não pode ser descrita apenas em termos de ação e projetos, implica amor e aceitação. A encarnação não deve ser vista apenas como processo de aculturação e integração, mas como carinho de identificação pessoal e amizade. O índio, o pobre, o idoso, o enfermo, são pessoas e não problemas, devem ser recebidos e amados pelo que são, e não pelo que virão a ser” (21). É só lembrarmos que Jesus amou o jovem rico, mesmo sabendo que este não O seguiria (22). Uma reformulação, modelando o presente ao conceito bíblico, aprendendo com a tradição, utilizando-se de dois fundamentos (1 ser relevante; 2 não comprometer a mensagem de Jesus) para cumprir integralmente os dois mandamentos: “1 Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força (...) 2 Amarás o teu próximo como a ti mesmo”(23).
Referências
(1) René Padilla – Missão Integral, pg 113-114;
(2) Ed René Kivitz – Quebrando Paradigmas, pg 93;
(3) Tetsunao Yamamori, Rene Padilla e Gregorio Rake – Servindo com os Pobres na América Latina, pg 33;
(4) Tiago 1.27 e 2.15-17;
(5) Marcos 12.33;
(6) Ed René Kivitz – Quebrando Paradigmas, pg 92-93;
(7) idem, pg 92;
(8) Tetsunao Yamamori, Rene Padilla e Gregorio Rake – Servindo com os Pobres na América Latina, pg 38;
(9) René Padilla – Missão Integral, pg 50;
(10) de fato, há um livro do dr Carlos Caldas, pela editora Vida que fala sobre a contribuição de Orlando Costas para a Teologia Latino Americana;
“Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam.” Filipenses 3.17 (ACRF)
Eu defendo a ideia de uma reforma na Igreja nacional, e esta já está tardando. Autores como Paulo Romeiro, Marília Camargo, Augustus Nicodemus, Renato Vargens, Ciro Zibordi, Danilo Fernades, entre outros tem feito um ótimo trabalho apologético, seja em livros seja na internet. Mas seu trabalho poderia ser facilitado com uma reforma na Igreja brasileira. Uma teologia feita aqui, bíblica, levando em conta toda a tradição histórica reformada, mas sem ser puramente “enlatada” e importada seria um bom começo para esta reforma.
Diversos fatores dificultam a realização de uma Reforma verde e amarela. A desunião das igrejas; a preguiça de se pensar; uma ênfase desproporcional na urgência de evangelizar (que acaba gerando filhos de Deus perdidos dentro de clubes sociais denominados igrejas); a falta de conhecimento de teologia bíblica, sistemática e histórica (todas clássicas) gerando uma teologia prática adoecida; aculturação realizada pelos primeiros evangelistas que dificulta o resgate de uma tradição brasileira sadia – já que tudo foi demonizado; multiplicidade de cultura – o que torna difícil uma cultura nacional, em um país continental, sendo necessária uma contextualização in loco, talvez de região em região.
Antes de qualquer coisa, algo precisa ser dito. Para muitos, a teologia reformada está caduca. Jancey diz com conhecimento de causa: “O fundamentalismo, a hipocrisia, a politicagem, criaram um estado letárgico nas Igrejas Reformadas, isso no Brasil, que conheço (...). Os reformados, por favor, não me entendam mal, pois sou também um (1)”. Mas sobre os assanhados com a ideia de reformar ele mesmo alerta: “O neo-reformismo que se acautele (...) que não se crie outro vulto, outra história (...) não discordo da necessidade de mudança, porém meu medo é que a mudança tem acontecido na abordagem teológica e não na conduta cristã. Tempo de mudança? Sim, mas no caráter que a Igreja tem testemunhado (...) a Reforma que há de impactar o mundo é a Reforma dos valores normativos comportamentais (2)”. Para pessoas descontentes com a autoridade bíblica, para os libertinos e relativistas e para os pecadores convictos, que gostariam de uma leitura bíblica a seu bel-prazer, podem se valer da necessidade de uma Reforma nacional para que toda uma agenda anticristã seja levantada. Subjetivar e relativizar não são novidades. E contextualizar não significa dizer que o texto bíblico é ultrapassado e necessita ser re-avaliado em uma sociedade pluralista que caminha em um momento de diversidade. Assim como a tradição cristã (lembrando que doutrinas e confissões de fé são humanas, passíveis de erros e podem ser repensadas). Pelo contrário contextualizar as Escrituras significa aplicar uma verdade eterna agora, com o mesmo significado e relevância que teve em seu surgimento histórico. E isto deve influenciar o caráter e testemunho da Igreja.
As grandes confissões de fé e catecismos têm, segundo Guthrie (3): “uma autoridade temporária, provisória e relativa (...) porque reconhecem a autoridade suprema das Escrituras.” O problema como destaca Nicodemus (4) em seu livro é o de querer “criar tudo de novo em cada geração”. Em seu texto ele ataca os que se valem da expressão: Ecclesia Reformata, Semper Reformanda Est (Igreja Reformada, Sempre se Reformando) para justificar que é preciso sempre mudar e adaptar a interpretação bíblica ao contexto. Mas veremos mais a frente que o contexto deve ser interpretado pela Escritura, tendo esta primazia absoluta por ser Palavra de Deus. Nicodemus (5) divide reformados e reformistas: “Não preciso dizer que acredito que verdadeiros reformados estão sempre abertos para mudar, desde que esta mudança implique abandonar crenças e práticas erradas e adotar outras mais de acordo com a Bíblia. Quem vive se reformando teologicamente, por acreditar na evolução da verdade, não é reformado, mas reformista.” Por todo meu texto tenho tentado provar isto, que a verdade bíblica não muda nem evolui, mas sua aplicação tem sido prejudicada por uma leitura fora do contexto nacional, ou seja, devemos reformar nossas práticas e interpretações submissamente ao que o Senhor expressou como desejo missionário em Sua Palavra.
A América Latina foi o berço de dois movimentos teológicos: o da Teologia da Libertação (TdL) e da Teologia da Missão Integral (TMI). Um de cunho mais católico e outro de cunho protestante e ambos denominados por estudiosos por teologia de contexto; o que mesmo que receba críticas dos mais ortodoxos, tem seu valor na tentativa de tornar o anúncio relevante; e não apenas agradável como fazem o Movimento de Crescimento de Igreja (MCI) e a Teologia da Prosperidade.
Devo dizer, mesmo que eu seja apedrejado, que a TdL tem seu mérito, por sua inicial preocupação com o social – mesmo que este seja o mais próximo de teologia que ela se aproxima; e por ter sido pensada e elaborada aqui na América Latina. Mas também tem seu demérito, sendo seu profundo envolvimento Marxista (mesmo que negado por seus adeptos) e sua tentativa de tornar massa em minoria, extinguindo esta, tornando todos iguais (o que é de uma utopia terrena, algo que só veremos no Reino Celestial – algo que marxistas negam). Seu precursor foi Rubem Alves com sua tese Da Esperança - que iria se chamar Da Libertação (6) e seu organizador e difusor foi Gustavo Gutiérrez. Segundo Jansey, a TdL “nasceu da confluência de todas as Teologias que visavam a ação social, política e moral da Teologia em si (...) Por Gutiérrez a TdL é uma crítica a práxis histórica do Cristianismo, desapegada completamente dos ideais ortodoxos, que foram vistos como manipuladores (7)”. Este talvez o seu erro – o abandono a ortodoxia bíblica, dando ênfase ao Marxismo.
Já o modelo que me agrada mais, por seu modelo ser é bíblico, com uma visão de Reino de Deus, é o da TMI. Esta visão de reino é cósmica, nas palavras de Padilha: “o evangelho é uma mensagem cósmica: revela um Deus cujo propósito abarca o mundo inteiro (...) o indivíduo não existe isoladamente e portanto não se pode falar de salvação sem que se faça referência à relação do homem com o mundo do qual ele faz parte” (8). Este tem disposição em dialogar tanto com a TdL, quanto com a Fé Reformada (bebendo profundamente desta). A busca pelas respostas ao contexto local não é mais encontrada em Marx. Mas o elemento que tem primazia e que dá a direção e diretriz à abordagem prática e espiritual é a Palavra de Deus (9). Segundo Padilha, a TMI promove “uma reflexão em torno do Evangelho e (do) seu significado para o ser Humano e a sociedade na América Latina”, como um todo, integralmente, de modo tanto sistemático como prático(10). Sanches aborda que a TMI entende a igreja como comunidade apostólica “portanto, comissionada a missionar”, sendo que esta missão não pode ser reduzida exclusivamente a propagação da fé cristã e fundação de novas igrejas. Ela entende que: “A Igreja não é uma entidade isolada do mundo, mas ela o integra e participa direta ou indiretamente de sua transformação”. Assim sendo ela deve cooperar com esta transformação não só em anúncio, mas em vivência prática, “mas deve fazê-lo teologicamente, visto ser ela a Igreja do Senhor Jesus Cristo e não uma entidade social qualquer (11).”
Continua...
Referências:
(1) Tulio Jansey, Filosofia e Teologia no século XXI, pg 242;
(2) idem, pg 246-247;
(3) Shirley C. Guthrie - Sempre se Reformando, pg 57;
(4) Augustus Nicodemus – O que Estão Fazendo com a Igreja, pg 194;
(5) idem;
(6)Regina Sanches - Teologia da Missão Integral, pg 41 e Tulio Jansey, Filosofia e Teologia no século XXI, pg 229;
(7) Tulio Jansey, Filosofia e Teologia no século XXI, pg 230;
(8) René Padilla – Missão Integral, pg 15;
(9)Regina Sanches - Teologia da Missão Integral, pg 133;
(10) René Padilla – Missão Integral, pg 13;
(11)Regina Sanches - Teologia da Missão Integral, pg 145;
Quarta parte: Necessidade de uma Reforma no Brasil
“Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele.” Jeremias 6.16
Nosso país não conheceu o impacto da Reforma, isso é fato. Aliás, as multidões que adentram semanalmente os vários templos cristãos, em sua maioria, ignoram os princípios da Reforma. Em sua busca pela resolução de seu problema, pelo antropocentrismo, pelo imediatismo do já (deve-se frisar que é o que é oferecido a eles), “comem pão azedo” que já fora rejeitado por Lutero e outros reformadores.
Após o ataque inicial a Igreja feito pelo pós-modernismo, relativismo e individualismo, observamos agora o desenvolvimento deste último. Surge a geração do “cada um na sua, mas com alguma coisa em comum (1)” que nomeou e norteia a fase das tribos. Nascemos para viver em comunidades, mas o ataque das filosofias egocêntricas empurrou o mundo ao isolamento individualista. A partir daí “os diferentes, mas iguais” se juntarem em tribos foi um pulo. Uma boa definição das tribos modernas é feita por André: “A tribo é, por natureza, um ajuntamento de ovelhas desgarradas, o ponto de convergência de solitários desfamiliarizados que buscam sobreviver à queda do ninho (2)”. Concluo dizendo que, infelizmente, muitas igrejas são ajuntamentos de pessoas feridas e machucadas, egocêntricas, buscando um alívio e um produto comum (as bênçãos) estando dispostas a negociarem com Deus para obtê-las e sentirem-se bem.
Shaw diz que: “Este pensamento de ‘sentir-se bem’ gera um consenso muito pequeno. O que produz milhares de ideologias do tipo ‘eu primeiro’, isoladas de qualquer verdade comum significativa ou de valores compartilhados” (3). Devo salientar que o princípio bíblico da comunhão da Igreja e sua atuação prática estão na UTI. O individualismo evoluiu para um tribalismo radical nos anos 90 segundo Shaw (4). Seu foco atual (maioria das igrejas) é semelhante a uma associação de pessoas “credoras” de Deus, que se juntam nos finais de semana e nas “correntes” para reivindicar “seus direitos”, alcançados com oração, fé, confissão positiva, profecia, jejuns, e ofertas. Complemento citando Shaw: “Facções, consumismo espiritual e a ênfase no pensamento do ‘sentir-se bem consigo mesmo’ são as subculturas produzidas dentro da Igreja que parecem refletir os valores do pós-modernismo, mais do que do Evangelho (5)”.
Em seu livro, André (6) enumera 10 características da ação do pós-modernismo dentro da igreja: “1 (o indivíduo) participa de uma igreja, mas é infiel ao grupo; 2 não possui ela nenhum com seus antepassados de fé; 3 age movido apenas por sentimentos; 4 não se preocupa em buscar coerência entre as coisas que crê; 5 é desconstrutivista bíblico; 6 faz de tudo para ter divertimento; 7 adora novidade; 8 procura apenas o que serve para lhe satisfazer os desejos; 9 acredita que possui em si mesmo um poder divino capaz de obrigar tudo e todos a cumprir suas ordens; 10 seu maior objetivo é prosperar em tudo.” Talvez você enxergue algumas destas características em sua comunidade ou em sua vida. Talvez o negar a nós mesmos, tomar a nossa cruz todos os dias e seguir os passos de Jesus (7) deva ser restaurado.
Com o modelo sociológico e filosófico definido pelo pós-modernismo (8) devemos buscar formas de quebrar a barreira do individualismo, do relativismo, e do pluralismo e da falsa comunhão tribalista que apregoa uma diversidade em agenda não bíblica. Certa feita, Bonhoeffer ouviu algumas críticas contra a Igreja e disse: “Nesse caso, precisarei reformá-la (9)”. Mas isso regado a amor, nas Palavras de Guthrie: “Como podem esperar (os da igreja) que aqueles que estão do lado de fora fiquem impressionados com suas palavras sobre o amor cristão, se eles não querem e são incapazes de demonstrá-lo até mesmo em sua própria comunidade” (10). Ao que complementa André: “Livres para amar, ficamos independentes do sistema satânico que vigora. Independentes deste sistema, testemunhamos com poder da graça divina através de atos e palavras. No testemunho, glorificamos a Deus por Ele ser quem é e isso torna público o Seu caráter amoroso, o evangelho se projeta com arrojo das cinzas e escombros do mundo e estabelece uma realidade superior: o reino do céu” (11).
Façamos nossa as palavras de Bonhoeffer, vamos reformar a Igreja. Voltar a Bíblia, como regra de fé – e que isto não seja apenas um chavão reformado. Com muito amor devemos fazer uma leitura sadia da bíblia, das confissões históricas e sem perder o foco do conteúdo, buscar contextualizar e tornar nossa mensagem cristã relevante e prática dentro da necessidade do povo (e não de seu puro desejo). Ou seja, ovelhas que precisam de pastor (12), cegos que precisam de guias (13), presos que precisam de visita, nus que precisam de vestes (FÍSICAS), famintos que precisam de pão (FÍSICO), enfermos que precisam de visitas (14), entre outros. Em todas estas atitudes há salvação. Cristo nosso salvador participa em nós destas ações e cabe ao Espírito Santo dar fé e convencer os pecadores que há algo melhor. A nós cabe demonstrar este melhor.
Continua...
(1) Slogan do cigarro Free, final dos anos 80;
(2)Marco André – Incômodo, pg 123;
(3) Mark Shaw – Lições de Mestre, pg 227;
(4) Idem, pg 229;
(5) Ibdem;
(6)Marco André – Incômodo, pg 80-82;
(7) Lc 9.23;
(8) Tulio Jansey, Filosofia e Teologia no século XXI, pg 84;
(9)Eberhard Bethge – Dietrich Bonhoeffer pg 22, citado por Mark Shaw – Lições de Mestre, pg 231;
(10) Shirley C. Guthrie - Sempre se Reformando, pg173;
“Esta terra, senhor em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar
dar-se-há nela tudo”. Pero Vaz de Caminha
O descobrimento do Brasil e a Reforma Protestante aconteceram em datas próximas. O país do futebol não havia ainda completado a maioridade quando as teses de Lutero vieram a público. Mas a distância entre um e outro é maior que a distância entre Wittenberg (o “rio Ipiranga” da Reforma) e o Monte Pascoal (levou esse nome porque no oitavo dia da Páscoa cristã, foi à primeira elevação de terra avistada da então batizada terra de Vera Cruz, nosso Brasil). Claro que devo ter bom senso de entender que não há o que reformar em uma terra que começa a ser explorada (em todos os aspectos). Mas, dada a maneira em que foi formada, tanto a cultura como a espiritualidade nacional, a reforma já se fazia necessária em poucos anos.
Os dois (Reforma e descobrimento) têm um fator em comum: a era da navegação e das descobertas, e, como vimos no texto passado, estes foram dois dos fatores determinantes e favorecedores para a Reforma (1). Mas esta demorou a desembarcar no Brasil. Aliás, o próprio romanismo Português e a intenção de cristianizar (muito diferente de evangelizar) demorou a atracar em solo nacional.
Do apelo missionário de Pero Vaz de Caminha em sua carta ao rei de Portugal e a primeira missa, a enfim chegada da primeira missão (ainda que fosse jesuíta) passaram-se quarenta e nove anos. A própria carta de Caminha, que fora arquivada nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, ficou 300 anos engavetada até “ser descoberta”. Em determinado momento emocionante, Caminha escreve: “O melhor fruto que nela (o Brasil) se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza (rei de Portugal) em ela deve lançar” (2). Infelizmente:
1. Demorou 49 anos para que este apelo fosse atendido, ainda que sem saber; além de ser um processo de catequização, ou seja, uma cristianização forçada ao invés de evangelização;
2. O apelo de Caminha em si demorou três séculos a ser encontrado e seu apelo descoberto. Será que nossa “memória curta”, e o prazer em ignorar a história têm origem lusitana?
O fato é que os jesuítas, ordenados e comissionados por Inácio de Loyola, foram os primeiros missionários enviados ao Brasil. Sendo que, os protestantes aportaram aqui somente em 1555 (3). Posto isto, devemos fazer algumas considerações para que possamos caminhar em uma mesma linha de raciocínio:
A. O campo missionário brasileiro, além de sua vasta população indígena (que de três uma: ou foram cristianizados, ou foram perseguidos e isolados ou foram dizimados), fora consideravelmente ampliado com o fluxo de escravos para cá trazidos, aumentando assim o número de não-alcançados. Fatores então que somados (várias crenças e religiões tribais + imposição de uma nova fé + religião oficial) resultou, em grosso modo, no sincretismo contemporâneo, onde principalmente o catolicismo romano e o neo-pentecostalismo mesclam: paganismo, catolicismo, cristianismo, espiritismo, empreendedorismo comercial e cultos africanos; gerando um cristianismo sincrético e ou nominal, muito aquém do reformado e mais distante ainda do modelo original apostólico, sendo que, além de tudo, este é pior do que o cristianismo medieval que fora combatido pela Reforma;
B. Se o clero católico romano europeu não era piedoso e fiel como deveria ser, os missionários romanistas que aqui chegavam não diferiam desta “qualidade”. Agrava-se o fato que o plano de colonização português era bem peculiar (envolvendo bandidos, desocupados, vagabundos, e exploradores gananciosos). O conhecimento teológico era impuro e ou incompleto. Só como exemplo, o famoso jesuíta Anchieta, elaborou o primeiro catecismo tupiniquim, onde deixou de mencionar a ressurreição de Cristo (4), fazendo valer a advertência de Paulo: “E, se Cristo não foi ressuscitado, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.” (5), ou seja, pergunto como pregar um cristianismo sem mencionar a ressurreição?
C. A Reforma deu-se na Europa. O que aqui chegou, anos mais tarde foram documentos, conclusões e ensino sobre os eventos externos, inseridos em outro contexto. Muitos dos cristãos reformados e da sua religião e culto vieram com colonizadores da Holanda, Alemanha entre outros países. Essa segunda leva de colonizadores diferia muito dos portugueses, mas, não vieram para evangelizar. Os cultos e igrejas nasciam para que eles pudessem continuar sua fé. Mais tarde, com o aparecimento dos evangelicais, dentro do movimento reformado com os re-avivamentos, nasceu a missão moderna. Mas ainda assim, o ensino reformado trazido a nós fora criado em um contexto Europeu e sua mecânica e aplicação consistiu em reformular a Europa. Aqui, bastava impor e ajustar o Novo Mundo aos seus decretos, confissões de fé e catecismos, pensavam eles.
Existe uma máxima, totalmente aplicável que diz o seguinte: “a teologia nasceu na Alemanha, amadureceu na França, envelheceu na Inglaterra, apodreceu nos Estados Unidos e hoje é consumida (estragada mesmo) na África e América Latina.” Podemos ver até na televisão (com os tele-evangelistas) a consequência disto.
É mister que se elabore uma teologia local. E esta deve não apenas ser ideológica, mas bíblica. Esta deve ser elaborada por pessoas daqui, que trabalham, sofrem, vencem, perdem, conhecem e entendem os anseios locais. O mais próximo que chegamos a isso, na América Latina foi com a Teologia da Libertação (TdL) e a Teologia da Missão Integral (TMI) – trataremos delas mais a frente.
Continua...
referências:
(1) Tulio Jansey, Filosofia e Teologia no século XXI, pg 137;
(2) Paulo Roberto Pereira – Os três únicos testemunhos do descobrimento da Brasil, pg 58, citado por Elben M. L. Cézar – História da Evangelização do Brasil, pg 23 ;
(3) Elben M. L. Cézar – História da Evangelização do Brasil, pg 37;
Primeira parte: Necessidade de Aprender e Relembrar
“Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito:
O justo viverá por fé.” Romanos 1.17
(verso que despertou Lutero para a justiça de Deus e a justificação pela fé)
No dia 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero, em ação que inquietou o mundo de então, trouxe a público as suas famosas 95 teses. Está ação potencializa ou e consagrou o momento como o ápice da Reforma (claro que não posso deixar de fora o momento subseqüente, quando a Reforma ganhou uma teologia com Melancton, Zwinglio e Calvino, mas trataremos disto mais adiante). Antes do ato público de Lutero, diversos movimentos vieram à tona por toda a Europa, dentre os quais se destacam os Valdenses, Wyclif e o Lolardos (seguidores de Wyclif), Huss, Jerônimo de Praga, Savonarola, entre outros.
O caldo estava engrossando ao fogo do momento. Os devaneios da Igreja Romana com suas indulgências obrigatórias, sua simonia, os desmandos papais e a depravação moral do clero; estava sendo denunciada por um coro de muitas vozes, mas nenhuma até então contou com tantos arranjos especiais como a atitude de Lutero. Era o momento filosófico (com o Humanismo e o Renascentismo); o momento científico; o momento das navegações e descobertas marítimas; momento político; ou seja, um momento ímpar.
Cito Jansey: “Enfim, as mudanças política, econômica, social filosófica, artística, literária e afins, pelas quais passava o mundo, propiciaram a Reforma Protestante, em momento Fortunado, pela descentralização do poder. As desavenças com líderes religiosos e pensadores e a insatisfação do povo assolado pela peste e as cobranças exacerbadas das taxas do catolicismo romano, serviram de aio para que o sistema ditatorial católico romano, no modelo carrasco com o qual trilhou seu crescimento, fosse abalado por circunstâncias nunca imaginado ao longo de mil anos. Todo esse mover foi a Reforma em si, pois reforma significa pôr forma outra vez.” (1)
O maior avivamento que a igreja passou (2) ocorreu em uma sinfonia com extenso prelúdio, composto por diversos personagens, cooperado por muitos fatores, sendo que, mesmo desorganizados, fomentaram os eventos, tanto profundos quanto elaborados. O Espírito sopra onde quer, e como quiser. Disto concluímos que Deus agiu naquela época, assim como age hoje, por meios que por vezes nos parecem estranhos. Lutero afirmou certa vez: "Enquanto eu dormia, ou bebia cerveja Wittenberg com meus amigos, a Palavra enfraquecia grandemente o papado de maneira tal como nenhum príncipe ou imperador havia antes infligido tais perdas sobre ele.Eu não fiz nada; a Palavra é que fez tudo”.
Pouco antes do ápice desta sinfonia, Lutero ensaiou com 97 teses, rejeitando o neo-pelagianismo medieval, assumindo uma linha agostiniana (3). As 95 teses foram levadas a público neste mesmo ano. A cobrança de Indulgências passava por perto da cidade onde os fatos se deram, Wittenberg (4). O tema principal das teses, que devido ao trabalho de um tipógrafo que imprimiu e distribuiu uma grande quantidade de cópias, era o da justificação do homem pela fé somente.
Ainda que Lutero tivesse abalado as estruturas romanistas, sua teologia e as próprias teses em si continham falhas. Lutero mesmo nem ao menos desejou um rompimento com Roma, mas queria que esta reconhecesse seus erros e os corrigisse. Suas teses atacavam, em parte, a cobrança das Indulgências. Mas não as condenavam, apenas a sua obrigatoriedade de compra (algo familiar as práticas contemporâneas?), como vemos na tese 47: “Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre, e não constitui obrigação” (5). De igual maneira, doutrinas estranhas como a do purgatório, também não foram condenadas, mas sim o abuso psicológico e a reivindicação absoluta autoridade de Roma, em decidir quem entra, sai ou permanece, tanto no purgatório (doutrina estranha as Escrituras) como no Inferno. Uma frase famosa foi combatida por Lutero na tese 27: “Pregam doutrina humana aqueles que dizem, tão logo a tilintar a moeda lançada na caixa, que a alma sairá voando (do purgatório)” (6) – sendo este um dos lemas dos arrecadadores das Indulgências.
Após Lutero, Melancton, Zwíglio, Calvino, Tyndale, Knox, Menno Simons, entre outros, foram formulando, aprimorando a teologia reformada. Vários problemas foram encontrados. Perseguições, lutas, invejas e disputas dentro e fora. O cenário que proporcionou o evento em si (a descentralização) agora também atrapalha. A bíblia nas mãos e o poder interpretá-la (pois até então só o clero romano podia – em tempo até hoje dizem isso), o que acabou gerando (e gera até hoje) leituras talvez mais equivocadas que a de Roma. Tudo isto, somado as reviravoltas filosóficas, acabaram por seduzir muitos reformadores e pessoas próximas, criando não só acertos como também novas heresias, exageros e desnecessárias divisões. Deve-se ter em mente também que com o início da perseguição romana, da Inquisição, o clima acabou ficando tenso, e se, de um lado havia perseguições, de outro (reformado) qualquer sombra de variação ou retrocesso, era imediatamente castigada em uma espécie de “inquisição interna dos reformadores”.
O historiador reformado Alderi de Matos afirma que: “Num certo sentido, a Reforma fracassou. A igreja romana não se deixou reformar nos moldes protestantes, mas por um lado reagiu vigorosamente contra o novo movimento (Contra-Reforma) e por outro lado realizou a sua própria reforma interna, corrigindo distorções e solidificando sua teologia.” (7).
Calvino, comentando Gálatas 1.10 disse certa vez: "A Igreja terá sempre em seu seio pessoas hipócritas e perversas, as quais preferem suas próprias cobiças à Palavra de Deus." Desta forma podemos concluir que a Reforma não foi tão Romântica como alguns a fazem parecer, nem tão desastrosa quanto outros afirmam. Ela foi de extremo valor. Devemos nossa liberdade e a busca de uma ortodoxia e ortopraxia aos ideais da Reforma que se estabeleceram com os cinco solas: ·Sola fide (somente a fé); ·Sola scriptura (somente a Escritura); ·SolusChristus (somente Cristo); ·Sola gratia (somente a graça); e ·Soli Deo gloria (glória somente a Deus).
Busque a estudar a história. Aplique-se em conhecer mais deste momento da igreja. É fundamental para o cristão conhecer suas raízes. Desde o período da Patrística, o seu desenrolar nas eras e o alvoroço pré-reforma, a Reforma em si, e até os dias atuais. Isso fará com que você entenda melhor a Igreja contemporânea. Sem falar que poderemos ver que alguns modismos e heresias (vários dos quais sob títulos proféticos ou apostólicos), que por vezes nos parecem novas, são na maioria dos casos repetições ou variações dos equívocos passados, que os hereges atuais insistem em reaplicá-las. Assim, o lema da Reforma: Ecclesia Reformata, Semper Reformanda Est (Igreja Reformada, Sempre se Reformando) pode continuar vivo, com cristãos bem instruídos, que não balançam a cabeça para qualquer vento de doutrina. David Martin Lloyd-Jones afirmou certa feita: "De fato opino que, talvez, a maior de todas as lições da Reforma Protestante seja que o meio de recuperação é sempre ir atrás, DE VOLTA ao modelo primitivo, à origem, às normas e ao padrão que só se encontram no Novo Testamento."
Continua...
referências:
(1) Tulio Jansey, Filosofia e Teologia no século XXI, pg 139;
(2) revista Ultimato n 317, pg 28;
(3) O Pensamento Cristão – Tony Lane, pg 192;
(4) idem;
(5) Do Cativeiro Babilônico da Igreja – Apêndice, pg 127;
(6) idem, pg 125;
(7) Fundamentos da Teologia Histórica – Alderi de Souza Matos, pg 141.
Irmãos, quanto aos dons espirituais não quero que vocês sejam ignorantes. (1 Cor. 12:1 NVI)
Os Dons Espirituais Servem ao Senhorio de Jesus
Vocês sabem que, quando eram pagãos, de uma forma ou de outra eram fortemente atraídos e levados para os ídolos mudos. Por isso, eu lhes afirmo que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: "Jesus seja amaldiçoado"; e ninguém pode dizer: "Jesus é Senhor", a não ser pelo Espírito Santo. (1 Cor. 12:2-3 NVI)
O aspecto primordial do ministério e dos dons espirituais é revelar o senhorio de Jesus Cristo como Deus sobre todas as pessoas e coisas. Então, se alguém diz ser cristão ou quer exercer um ministério mas não afirma o senhorio de Jesus Cristo, essa pessoa não têm o Espírito Santo. A evidência primária de uma pessoa ter o Espírito santo é o seu amor e submissão a Jesus.
Os Dons espirituais são concedidos pela Trindade
Há diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diferentes tipos de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diferentes formas de atuação, mas é o mesmo Deus quem efetua tudo em todos. (1 Cor. 12:4-6 NVI)
Aqui nós vemos que toda a Trindade está envolvida em conceder dons à igreja para o ministério.
Cada dom espiritual existe para beneficiar a igreja inteira
A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum. (1 Cor. 12:7 NVI)
Qualquer que seja o dom de alguém, o propósito do dom é edificar e beneficiar toda a igreja, não só edificar o indivíduo que está utilizando o dom.
Dons espirituais são designados por Deus
Todas essas coisas, porém, são realizadas pelo mesmo e único Espírito, e ele as distribui individualmente, a cada um, como quer. (1Co 12.11 NVI)
Dons espirituais são determinados por escolha de Deus; nós não podemos escolher nosso dom. Portanto, qualquer pessoa que esteja insatisfeita com a forma como Deus a fez, está, na realidade, queixando-se por Deus não ter lhe dado o dom que queria. Isso é semelhante a uma criança mimada que desembrulha um presente somente para ficar reclamando dele.
Minha oração é que meus rascunhos possam lhe ajudar a escreveres a obra-prima de tua vida. Aquino
É com enorme orgulho que eu apresento a primeira obra de um cara que é meu professor de teologia, amigo, e sobretudo irmão em Cristo. Conhecendo o Rodrigo como eu conheço, creio que será uma leitura agradável, e deveras edificante.Sem falar que lhe fará pensar muito. Estou louco para o ler, e compartilho o anúncio de lançamento.
INTRODUÇÃO
Este pequeno livro é o extrato das reflexões que escrevi no blog Ócio Teológico ao longo de um ano.
Lá discorri sobre assuntos que envolvem a fé cristã, refleti sobre o jeito evangélico de ser, compartilhei as minhas dúvidas, ajudei e fui ajudado.
A idéia de colocar parte disso no papel surgiu no afã de abençoar os que não têm acesso a internet e aos que ainda preferem o bom e velho livro, pois gostam de riscar, ler em locais diversos, presentear, etc.
O livro tem esse título porque acredito que minhas idéias, aquilo que sou e sinto, estão em constante mudança, em construção. Como sou inacabado, só posso apresentar rascunhos, nada definitivo!
Rascunhos da Alma são partes de reflexões que desejo compartilhar com você, por isso, o livro não trata de um único assunto, mas de vários que visam um único objetivo:o despertar para uma espiritualidade saudável que responda em amor a ação graciosa de Deus.
Escrevemos sobre oração, amor ao próximo, sinceridade, salvação, missão, arrependimento, etc. Confira,com certeza, aprenderás algo de novo.
Quem mora em Joinville, pode adquirí-lo nas Lojas da Bíblia, CIA Gospel e Átrios (Pirabeiraba).
To cansado de comentários como: “Não toque no ungido”; “Não julgue” e por aí a fora. Pensando nisso, resolvi escrever um post para instrução na fé de como devemos tratar um herege.
Bem vamos lá o que é um herege? É aquele que ensina o falso caminho. Logo, se ensina algo que provém de mentira, não pode ser colocado no rol dos ungidos, nem precisa ser julgado porque já se condenou. Hoje tem essa frescura de tomar cuidado com o que diz em relação a tal pessoa, no caso dos hereges, essa postura deve ser substituída por “cuidado sobre o que você não fala sobre essa pessoa”.
O ministério profético é composto de denuncia e anuncio e é isso que devemos fazer mesmo, denunciar as estruturas podres e seus criadores e anunciar o Evangelho de Cristo até que Ele venha. Veja como Policarpo, discípulo dos apóstolos tratava um herege: “O próprio Policarpo, quando Marcião, um dia, se lhe avizinhou e lhe dizia: "Prazer em conhecê-lo", respondeu: "Eu te conheço como o primogênito de Satã"; tanta era a prudência dos apóstolos e dos seus discípulos, que recusavam comunicar, ainda que só com a palavra, com alguém que deturpasse a verdade, em conformidade com o que Paulo diz: "Foge do homem herege depois da primeira e da segunda correção, sabendo que está pervertido e é condenado pelo seu próprio juízo" (Tt.3.10-11). Sabe o que é pior, Marcião perto de uns caras desses de hoje em dia era fichinha meu amigo. Seria engolido pelos profetas da prosperidade com imensa facilidade. E tem gente dando cobertura pra esses marmanjos mal intencionados por aí. Pra finalizar, herege tem que ser tratado como tal, filho do diabo. E não como coitadinho que precisa de atenção. E no mais... tudo na mais santa paz! Recomendo para leitura: http://teologia-vida.blogspot.com/2009/09/joao-policarpo-e-os-hereges.html fonte: pr Márcio de Souza
Em comemoração ao primeiro ano do blog Ecclesia Semper Reformanda Est, reuni alguns textos, de professores e colegas do seminário, com o tema livre, paraque possamos aprender juntos e mais de algumas mentes cristãs pensantes (expressão que infelizmente soa contraditória na igreja pós-moderna). Este é o segundo (LEIA AQUI O PRIMEIRO) de dois textos que fazem parte da dissertação de Mestrado do pastor e professor Marcelo de Oliveira, apresentado naFAJE (Teologia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - BH), sob o título de Retribuição e Prosperidade: Gênese, Percurso Histórico e Confronto com a Teologia da Graça. Aproveite:
Entre os que se ocupam da pastoral cristã, há convergência na percepção de que se observa certa descaracterização quanto ao perfil do pregador e à mensagem pregada no que tange aos moldes cristãos tradicionais, principalmente em algumas igrejas neopentecostais. Tal desvirtuamento, no entanto, não se dá na modernização ou atualização da comunicação das mensagens, principalmente da comunicação midiática, tão necessária na contemporaneidade. Trata-se, sim, de uma forma de dilapidação no conteúdo teológico e doutrinário do kérygma.
Essa descaracterização dá-se através de práticas ministeriais e litúrgicas neopentecostais, no mínimo controvertidas, bem como ensinos polêmicos. As formas como expressam a fé são questionado, tanto teológica quanto pastoralmente, pelas igrejas evangélicas históricas e outras instituições religiosas cristãs preocupadas com a ortodoxia, e também pela imprensa.
A título de exemplo, em seu livro, A Libertação da Teologia, Edir Macedo procura desmoralizar todas as tentativas feitas pela Igreja Cristã, ao longo da sua existência, de compreender logicamente e sistematizar o ensino cristão como encontrado nas Escrituras[1].
Algumas vezes, percebe-se que é pela falta de uma racionalidade teológica que organize de forma coerente o que se crê, que muitos fiéis, confusos, apegam-se, sem reflexão, a promessas mirabolantes anunciadas através das pregações neopentecostais
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A descaracterização da pregação cristã que se entende presente no discurso da Teologia da Prosperidade das igrejas neopentecostais será analisado a seguir em três pontos: 1) a negação do kérygma em função do marketing de crescimento; 2) a negação do ensino em função da satisfação das necessidades humanas; e 3) a negação da Teologia da Graça.