Vemos hoje muito entusiasmo e alegria pelo crescimento do número de evangélicos no Brasil. Mas confesso que observo com certa desconfiança esse crescimento.
Efervescência seria a palavra. Você já notou quando é colocado um comprimido efervescente em um copo d’água? O volume tende a crescer, há um barulho, tudo se move e borbulha. Mas após um tempo, cessa o barulho. Decorrido um pouco mais de tempo, o gás produzido pela efervescência do comprimido some. E o pior, a água pura, não é mais pura, tem agora um gosto desagradável e o princípio ativo do medicamento já não surte efeito. Colocaríamos mais um comprimido para começar todo o processo novamente? Bem, o que eu quero dizer com isso é que há muito “comprimido efervescente” nas igrejas hoje. Há muitas fórmulas e métodos sendo aplicados. Há muita ajuda sendo prestada a Deus (quem disse que ELE precisa de ajuda, ELE é o Ajudador e só precisa de servos obedientes).
No século passado, Charles Spurgeon advertiu que a igreja estava se afastando da pureza do evangelho. Ao invés de proclamar com ousadia as verdades da Escritura, os crentes estavam tornando a Escritura mais aceitável, sendo cuidadosos em não ofender qualquer pessoa. O Dr. D. Martyn Lloyd-Jones diz em seu livro Pregação e Pregadores que: “Nosso dever é apresentar o evangelho em sua totalidade.(...) O que é a pregação? É a lógica pegando fogo! É a teologia em chamas! É raciocínio eloqüente! (...) Qual é a principal finalidade da pregação? Gosto de pensar que é esta: dar a homens e mulheres o senso de Deus e de sua presença.”.
A presença de um Deus Santo reflete a condição humana de pecador pela confrontação com o pecado. O principal objetivo de um profeta é a denúncia do pecado do povo, para que este se converta do mau caminho. E isso deve ser feito com amor e não com acusação. Hoje a profecia que emana da maioria dos púlpitos é uma sorte de bênçãos e vitórias.
Eu quero o que tenho “direito”
Sejamos sinceros, o que é mais agradável? Ouvir que Deus pode lhe dar isto ou aquilo (ou tem que dar como proferem e preferem alguns), ou ouvir algo que lhe faça refletir sobre seus erros e tomar uma atitude sobre o que se ouviu? Para obter a resposta é só observar o crescimento dos ministérios onde só se fala e se prega sobre as bênçãos, frente aos ministérios que enfatizam a vontade do Abençoador.
Porque ninguém ora pelo cumprimento dessas palavras (que também são santas):
“E na verdade todos os que querem viver piamente
Cadê a raiz que estava aqui?
Você pode até dizer: - Mas Beto, você é muito retrógrado. O que importa é enchermos as igrejas e esvaziarmos o inferno. Os tempos são outros e temos de nos adaptar. Apesar disso, eu fico com o apóstolo Paulo quando este diz: prega a Palavra. Não adianta você crescer para cima, para os lados e não crescer para baixo. Não ter raízes. Disse Jesus (Mt 7.24): “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha.” Temos uma geração de rasos em conhecimento da Palavra e consequentemente de Deus. Será que essa adaptação esvaziará mesmo o inferno? Ou o encherá ainda mais? Paulo diz o seguinte em 2 Timótio, capítulo 4, versos 1 ao 4: “Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas.”.
É triste, mas, admoestar, repreender e exortar está démodé, ou seja, fora de moda. O pior é que os que o fazem, ainda fazem sem a longanimidade que Paulo falou. Isto facilita os “mestres das coisas agradáveis” e seus seguidores a proliferar. Devemos odiar e denunciar o pecado. Mas o pecador, inclusive aquele que já está dentro da igreja, tem de ser amado, respeitado, não julgado e principalmente auxiliado em sua libertação.
Que esperança você tem?
Há cerca de dois meses eu estava
Mais uma dose de promessa aqui...
Esse tipo de evangelho ego-centrista vicia, mas como qualquer vício, depois de um tempo é necessário ou uma dose maior ou algo mais forte. Notem essas duas passagens bíblicas: “O Seol (inferno) e o Abadom nunca se fartam, e os olhos do homem nunca se satisfazem”. Provérbios 27.20. “... e todas estas bênçãos virão sobre ti e te alcançarão, se ouvires a voz do Senhor teu Deus”. Deuteronômio 28.2. Ou seja, nosso ego, nosso eu, nossos olhos sempre vão em busca de mais. Em contrapartida, não precisamos correr atrás de benção, mas ouvindo (e ouvir inclui obedecer) a Deus, as bênçãos é que nos perseguirão.
Ricardo Gondim diz ainda que: “Creio que nenhum método de crescimento de igreja será bem sucedido sem um púlpito forte. Faltam-nos grandes pregadores. Talvez, estejamos sucumbindo ao imediatismo de nossa época. A pobreza de nossos púlpitos está estampada na miséria espiritual de nossos membros. A pregação perdeu-se em abstrações, vem sendo sepultada lentamente com jargões, monotonamente repete-se com fórmulas homiléticas. Pastores e evangelistas são muito mais promotores do que tribunos, mais administradores do que expositores. Estamos mais à cata de fórmulas que façam nossas igrejas crescerem do que ser arautos da verdade, pregoeiros da justiça”.
Partindo de uma premissa falaciosa, posso afirmar que só existe traficante de drogas porque há o usuário. Posso afirmar também que somente exista os “mestres das coisas agradáveis” porque há um público os seguindo ("tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas {...} dando ouvidos a espíritos enganadores {...} meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pela fraudulência dos homens... {2Ti 4.3-4; 1Ti 4.1; Ef 4.14}). Como eu disse é uma falácia óbvia , mas se encaixa. O povo deve ser orientado corretamente, mesmo que para isso a pregação tenha de ser dura (João Batista não era nada light, mas o povo ia atrás da sua pregação). Então a culpa é dos pregadores? Sim, mas vamos dividí-la, bem divididinha com o povo. Se o povo fizesse como os crentes de Beréia (Atos 17. 10-11) não se deixariam levar por qualquer mercador, perdão, "pregador da fé". "Mas de modo algum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos. O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. (Jo 10.5; Os 4.6).
Acabou o Seu tempo!
Tempos atrás, ouvi tristemente ataques de diversos ministérios "antenados" e "extravagantes" aos pastores que pregam mais de cinco (isso mesmo) 5 minutos. No livro Como Ser Cristão Sem Ser Religioso, Fritz Ridenour diz o seguinte: “Por mais claro que Paulo tenha sido ao escrever aos cristãos de Roma, a mensagem da graça de Deus parece não ter ressonância em nosso coração. Vivemos diariamente barganhando o favor de Deus. Enquanto não percebermos que não há nada que possamos fazer ou ser para merecê-la, não passaremos de meros religiosos”. Ou seja, além das promessas e mais promessas de bênçãos (feitas por homens), das negociatas e campanhas para merecê-las, ainda há campanhas contra pregações. São evidentes quais tipos de pregações não podem ultrapassar cinco minutos: aquelas que colocam um espelho na frente das pessoas e mostram sem meios termos o quão distante do projeto Divino elas estão.
Não vos conformeis e tende esperança em algo melhor
E o que podemos fazer? Criticar por criticar, não adianta. Cria mais divisão e por seguinte mais “ministérios estranhos”. Podemos ouvir a Paulo: “prega a Palavra!”. Podemos principalmente, movidos pela Teologia que eu acredito e aceito, a da Esperança, não nos conformamos. Paulo descreve assim: “E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Romanos 12.2. Não podemos nos conformar nunca. Devemos sempre olhar a frente, e não parar para festejar pequenas vitórias ou chorar pequenos fracassos. Não digo que devemos ser um bando de insatisfeitos com as coisas que Deus nos dá. Mas não podemos nos satisfazer com as coisas como elas estão. É paradoxal, mas eu explico: com tantas pessoas sofrendo por seus erros, e por tantas pessoas com a oportunidade de alertá-las não fazendo, devemos ser gratos a Deus pelo que temos alcançado, mas insatisfeitos e combatentes, seja em mensagens, seja em oração, com a realidade do mundo, “sabemos que somos de Deus, e que o mundo inteiro jaz no Maligno”. (1 Jo 5.19), até o dia da segunda vinda triunfal de Cristo Jesus. Devemos sempre ter um visão à frente na esperança da segunda vinda do nosso Senhor e da passagem “para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível, reservada nos céus para vós” (vide 1Pedro 1.4). A. W. Tozer disse certa vez: “Tudo está errado até que Deus endireite as coisas”. Nossa parte é ensinar o correto, não dar ouvidos ao errado e orar, mas orar muito pelos ministérios, ministros e ministrados por esse tipo de evangelho.
Ouça Ela
Parafraseando Paulo eu não diria apenas: “prega a Palavra”. Mas acrescentaria “ouve apenas a Palavra”. Ela é que nos limpa: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado.” Jo 15.3. Ela é que nos dá fé: “Logo a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo.” Rm 10.17. Ela nos ajuda a discernir nossa vontade para termos certeza sobre algo: “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.” Hb 4.12. Ela é que nos admoesta para termos êxito: “Na verdade, nenhuma correção parece no momento ser motivo de gozo, porém de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos que por ele têm sido exercitados.” Hb 12.11. Revela a vontade de Deus: “Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não vem do Pai, mas sim do mundo. Ora, o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus, permanece para sempre.” (1Jo 2. 15-17). “Respondeu-lhes Jesus: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo.” (Jo 7. 16-17). Ela é a verdade: “Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade”. (Jo 17.17). Ela é por demais preciosa: “Mais desejáveis são do que o ouro, sim, do que muito ouro fino; e mais doces do que o mel e o licor dos favos”. (Pv 19.10).
Eu quero o meu!
Quando substituímos a Soberania de Cristo pelo “papai noel” Jesus, e quando substituímos Sua doce Palavra por discursos materialistas, somos obrigados a ler o que o Millôr Fernades escreve e engolir
Soli Deo Gloria (Só a Deus a Glória)
Senhor, tudo o que temos é Teu, e dá-nos sabedoria para administrarmos com temor tudo o que Tu nos deste. Que não Te busquemos apenas pelas maravilhas que podes fazer, mas principalmente pelo que Tu És. Que quando estivermos em lutas possamos continuar Te louvando, e deixemos de ser crianças mimadas reinvidicando “nossos direitos” de filhos e passemos a agir como filhos que na condição de herdeiros zelam pelo Reino do Pai. E que proclamemos com ousadia Tuas Palavras. Que paremos de ser imediatistas e possamos ser perseverantes na reta-doutrina. “Guardai-nos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores”. (Mt 7.15) Confiamos em Tua segunda vinda redentora e sabemos que: “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós cada vez mais abundantemente um eterno peso de glória” (2Co 4.17), Amém!
Ave crux, unica spes!

3 comentários:
muito bom esse artigo merecia um espaço na midia evangelica ,que Deus continue te iluminando a reflexões profundas para o crescimento sádio do corpo de cristo.
Amém irmão...
Espaço na mídia até não precisa. Jesus contou só com o boca a boca e fez um estrago danado. Se algumas pessoas levantarem a bandeira da Ortodoxia (mas com amor) possivelmente
a próxima geração terá uma igreja. Senão os próximos "preletores" se parecerão mais com o Sílvio Santos e Raul Gil do que com D. L.Moody, Pe Antônio Vieira, Edward Jonathan, A. W. Tozer, M. Lloyd Jones, C. H. Spurgeon...
abraços Marcelo
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