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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Dia 10/07/2009 - Aniversário do Reformador de Genebra

Legado de Calvino continua desafiador,
dizem reformados.


Em mensagem remetida às igrejas afiliadas no mundo, a Aliança Reformada Mundial (ARM) agradece a Deus o legado deixado pelo reformador francês João Calvino, que é desafiante para a atualidade.
Assinada pelo presidente e secretário-geral da ARM, reverendo Clifton Kirkpatrick e Setri Nyomi, a mensagem remete aos 500 anos de nascimento do reformador, que serão comemorados nesta sexta-feira. 10.

A família reformada comemora a data não para cultuar Calvino, nem apresentá-lo como um "santo perfeito". É contra princípios de cristãos reformados fomentar culto a personalidades. O próprio Calvino insistiu que "só a Deus cabe glória", diz a mensagem.
Calvino continua inspirando pessoas com o seu legado, em diferentes contextos, em resposta aos desafios da atualidade. "Em nosso mundo, hoje em dia, muitos sofrem por causa da injustiça na economia, e isto muito antes do atual colapso nos mercados financeiros", apontam os reformados.

Aquele quadro agravou-se com a crise financeira e a perda de emprego em muitos países, enquanto os que se beneficiaram do sistema são salvos de apuros. Reformados lembram palavras de Calvino: "Uma justa distribuição pode converter-se em realidade se os ricos não tragarem, avidamente, [...]o que pertence aos demais para satisfazer sua cobiça..." (comentário de Calvino sobre Êxodo 16,19.)

A mensagem da ARM frisa que a humanidade ignora, "descaradamente", o meio ambiente e a criação de Deus. As palavras de Calvino podem ser instrutivas: "Quem é dono de um pedaço de terra deve escolher os frutos de tal maneira que o solo não sofra danos", atuando como mordomos de Deus nem dando mau uso ao que Deus deseja preservar, comenta o reformador sobre o texto de Gênesis 2,15.

Mesmo dentro da igreja, onde há tantas divisões e cristãos não se levam a sério, Calvino arrola, segundo mensagem dos reformados, o chamado à unidade: "Cristo não pode ser dividido. A fé não pode ser alugada. Não existem vários batismos, senão um, que é comum a todos. Deus não pode estar dividido em diferentes partes".

Calvino escreveu tais comentários no século XVI, que, no entanto, continuam pertinentes nos dias de hoje. "Esse é o legado pelo qual damos graças a Deus. É nossa esperança que ele inspire o presente a nós, que vivemos no século XXI e devemos ser fiéis a Deus no nosso compromisso com a unidade dos cristãos e fazer frente às forças do mal e à injustiça na sociedade, fazendo todo o possível para sermos agentes de Deus para a transformação, fazendo a diferença nas nossas comunidades", assinala a ARM.

João Heliofar de Jesus Villar, 45 anos, é procurador regional da República da 4ª Região (no Rio Grande do Sul) e cristão evangélico, escreveu na revista Ultimato:

Por estar mais proximamente identificada com a herança deixada por Wesley, que, como se sabe, pendia mais para a doutrina arminiana do que para a concepção de predestinação sistematizada por Calvino em sua teologia da graça, a igreja pentecostal -- e por consequência os neopentecostais -- porta-se como se nada devesse ao reformador de Genebra, a quem inclusive vê com certa antipatia.

Esse é um erro lamentável. A dívida de todos nós, históricos ou não, para com João Calvino é imensa. É impossível desenvolver a temática apenas num artigo como este. Porém, vale a pena destacar dois pontos para pelo menos procurar demonstrar a importância que sua figura histórica representa para todos nós.

É um estereótipo de mau gosto reduzir o calvinismo à predestinação. A preocupação central de Calvino era com a glória de Deus, ao ponto do zelo extremo. Textos como Romanos 11.36 (“Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas”) e 1 Coríntios 10 (“Quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, façais tudo para a glória de Deus”) são centrais para a compreensão do seu pensamento e de sua ênfase na soberania de Deus. Aliás, num tempo em que a igreja esquece seu papel de expressar a glória de Deus e se volta de modo crescente para a satisfação das necessidades individuais, talvez a ênfase de Calvino seja mais necessária do que nunca. A ideia de que meu casamento, meu trabalho, meus relacionamentos etc., devem expressar a glória de Deus, sutilmente apaga-se cada vez mais, para dar lugar a uma teologia que tem como referência última a felicidade humana (isto é, meu casamento, meu trabalho, meus relacionamentos etc., devem servir à minha felicidade -- e que Deus me ajude!).

Além dessa saudável preocupação com a priorização da glória de Deus na existência como um todo, não podemos jamais esquecer o papel de Calvino como reformador. É certo que Lutero o antecedeu. Porém, a Reforma ainda não havia encontrado alguém que expressasse sua teologia, uma figura que sistematizasse de modo compreensivo o pensamento que Lutero expressou de modo apaixonado, mas desordenado. A Reforma já tinha seu Pedro, mas lhe faltava um Paulo. Com as Institutas da Religião Cristã o movimento ganhou um documento, uma apologia ordenada e sistemática, que lhe deu a estrutura necessária para crescer e avançar.

E a grandeza de Calvino foi justamente demonstrar que a Reforma não preconizava nada novo. Não se estava reiventando a roda, mas simplesmente proclamando o evangelho conforme suas raízes primitivas. Com seu conhecimento profundo das escrituras e sua cultura enciclopédica, demonstrava a cada passo que as principais reivindicações do movimento reformado estavam perfeitamente alinhadas com a Bíblia e o ensino dos pais da igreja.

Eram belas lições para seu tempo, e são belas lições para a igreja de hoje. Foco do culto e da existência humana na glória de Deus e profundo respeito pelo legado daqueles que vivenciaram a fé antes de nós. Parodiando Newton, a igreja pode prestar um tributo a Calvino nesta celebração dos quinhentos anos de seu nascimento e dizer: “Se hoje enxergamos mais longe é porque nos erguemos sobre ombros de gigantes”.


Fonte: Notícias Cristãs; e
Ultimato via Bereianos

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