Especial Reforma Protestante 492 anos
Primeira parte: Necessidade de Aprender e Relembrar
“Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito:
O justo viverá por fé.” Romanos 1.17
(verso que despertou Lutero para a justiça de Deus e a justificação pela fé)
No dia 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero, em ação que inquietou o mundo de então, trouxe a público as suas famosas 95 teses. Está ação potencializa ou e consagrou o momento como o ápice da Reforma (claro que não posso deixar de fora o momento subseqüente, quando a Reforma ganhou uma teologia com Melancton, Zwinglio e Calvino, mas trataremos disto mais adiante). Antes do ato público de Lutero, diversos movimentos vieram à tona por toda a Europa, dentre os quais se destacam os Valdenses, Wyclif e o Lolardos (seguidores de Wyclif), Huss, Jerônimo de Praga, Savonarola, entre outros.
O caldo estava engrossando ao fogo do momento. Os devaneios da Igreja Romana com suas indulgências obrigatórias, sua simonia, os desmandos papais e a depravação moral do clero; estava sendo denunciada por um coro de muitas vozes, mas nenhuma até então contou com tantos arranjos especiais como a atitude de Lutero. Era o momento filosófico (com o Humanismo e o Renascentismo); o momento científico; o momento das navegações e descobertas marítimas; momento político; ou seja, um momento ímpar.
Cito Jansey: “Enfim, as mudanças política, econômica, social filosófica, artística, literária e afins, pelas quais passava o mundo, propiciaram a Reforma Protestante, em momento Fortunado, pela descentralização do poder. As desavenças com líderes religiosos e pensadores e a insatisfação do povo assolado pela peste e as cobranças exacerbadas das taxas do catolicismo romano, serviram de aio para que o sistema ditatorial católico romano, no modelo carrasco com o qual trilhou seu crescimento, fosse abalado por circunstâncias nunca imaginado ao longo de mil anos. Todo esse mover foi a Reforma em si, pois reforma significa pôr forma outra vez.” (1)
O maior avivamento que a igreja passou (2) ocorreu em uma sinfonia com extenso prelúdio, composto por diversos personagens, cooperado por muitos fatores, sendo que, mesmo desorganizados, fomentaram os eventos, tanto profundos quanto elaborados. O Espírito sopra onde quer, e como quiser. Disto concluímos que Deus agiu naquela época, assim como age hoje, por meios que por vezes nos parecem estranhos. Lutero afirmou certa vez: "Enquanto eu dormia, ou bebia cerveja Wittenberg com meus amigos, a Palavra enfraquecia grandemente o papado de maneira tal como nenhum príncipe ou imperador havia antes infligido tais perdas sobre ele.Eu não fiz nada; a Palavra é que fez tudo”.
Pouco antes do ápice desta sinfonia, Lutero ensaiou com 97 teses, rejeitando o neo-pelagianismo medieval, assumindo uma linha agostiniana (3). As 95 teses foram levadas a público neste mesmo ano. A cobrança de Indulgências passava por perto da cidade onde os fatos se deram, Wittenberg (4). O tema principal das teses, que devido ao trabalho de um tipógrafo que imprimiu e distribuiu uma grande quantidade de cópias, era o da justificação do homem pela fé somente.
Ainda que Lutero tivesse abalado as estruturas romanistas, sua teologia e as próprias teses em si continham falhas. Lutero mesmo nem ao menos desejou um rompimento com Roma, mas queria que esta reconhecesse seus erros e os corrigisse. Suas teses atacavam, em parte, a cobrança das Indulgências. Mas não as condenavam, apenas a sua obrigatoriedade de compra (algo familiar as práticas contemporâneas?), como vemos na tese 47: “Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre, e não constitui obrigação” (5). De igual maneira, doutrinas estranhas como a do purgatório, também não foram condenadas, mas sim o abuso psicológico e a reivindicação absoluta autoridade de Roma, em decidir quem entra, sai ou permanece, tanto no purgatório (doutrina estranha as Escrituras) como no Inferno. Uma frase famosa foi combatida por Lutero na tese 27: “Pregam doutrina humana aqueles que dizem, tão logo a tilintar a moeda lançada na caixa, que a alma sairá voando (do purgatório)” (6) – sendo este um dos lemas dos arrecadadores das Indulgências.
Após Lutero, Melancton, Zwíglio, Calvino, Tyndale, Knox, Menno Simons, entre outros, foram formulando, aprimorando a teologia reformada. Vários problemas foram encontrados. Perseguições, lutas, invejas e disputas dentro e fora. O cenário que proporcionou o evento em si (a descentralização) agora também atrapalha. A bíblia nas mãos e o poder interpretá-la (pois até então só o clero romano podia – em tempo até hoje dizem isso), o que acabou gerando (e gera até hoje) leituras talvez mais equivocadas que a de Roma. Tudo isto, somado as reviravoltas filosóficas, acabaram por seduzir muitos reformadores e pessoas próximas, criando não só acertos como também novas heresias, exageros e desnecessárias divisões. Deve-se ter em mente também que com o início da perseguição romana, da Inquisição, o clima acabou ficando tenso, e se, de um lado havia perseguições, de outro (reformado) qualquer sombra de variação ou retrocesso, era imediatamente castigada em uma espécie de “inquisição interna dos reformadores”.
O historiador reformado Alderi de Matos afirma que: “Num certo sentido, a Reforma fracassou. A igreja romana não se deixou reformar nos moldes protestantes, mas por um lado reagiu vigorosamente contra o novo movimento (Contra-Reforma) e por outro lado realizou a sua própria reforma interna, corrigindo distorções e solidificando sua teologia.” (7).
Calvino, comentando Gálatas 1.10 disse certa vez: "A Igreja terá sempre em seu seio pessoas hipócritas e perversas, as quais preferem suas próprias cobiças à Palavra de Deus." Desta forma podemos concluir que a Reforma não foi tão Romântica como alguns a fazem parecer, nem tão desastrosa quanto outros afirmam. Ela foi de extremo valor. Devemos nossa liberdade e a busca de uma ortodoxia e ortopraxia aos ideais da Reforma que se estabeleceram com os cinco solas: · Sola fide (somente a fé); · Sola scriptura (somente a Escritura); · SolusChristus (somente Cristo); · Sola gratia (somente a graça); e · Soli Deo gloria (glória somente a Deus).
Busque a estudar a história. Aplique-se em conhecer mais deste momento da igreja. É fundamental para o cristão conhecer suas raízes. Desde o período da Patrística, o seu desenrolar nas eras e o alvoroço pré-reforma, a Reforma em si, e até os dias atuais. Isso fará com que você entenda melhor a Igreja contemporânea. Sem falar que poderemos ver que alguns modismos e heresias (vários dos quais sob títulos proféticos ou apostólicos), que por vezes nos parecem novas, são na maioria dos casos repetições ou variações dos equívocos passados, que os hereges atuais insistem em reaplicá-las. Assim, o lema da Reforma: Ecclesia Reformata, Semper Reformanda Est (Igreja Reformada, Sempre se Reformando) pode continuar vivo, com cristãos bem instruídos, que não balançam a cabeça para qualquer vento de doutrina. David Martin Lloyd-Jones afirmou certa feita: "De fato opino que, talvez, a maior de todas as lições da Reforma Protestante seja que o meio de recuperação é sempre ir atrás, DE VOLTA ao modelo primitivo, à origem, às normas e ao padrão que só se encontram no Novo Testamento."
Continua...
(1) Tulio Jansey, Filosofia e Teologia no século XXI, pg 139;
(2) revista Ultimato n 317, pg 28;
(3) O Pensamento Cristão – Tony Lane, pg 192;
(4) idem;
(5) Do Cativeiro Babilônico da Igreja – Apêndice, pg 127;
(6) idem, pg 125;
(7) Fundamentos da Teologia Histórica – Alderi de Souza Matos, pg 141.
Leia: Há um ano atrás: Reforma, Há o que Comemorar?
Ave Crux, Unica Spes!



2 comentários:
Beto, gostei do texto.
Também estou lançando um especial sobre a reforma. Nada tão original, mas algo pouco divulgado.
Valeu Leo.
Quero ver seu texto.
Vc viu a série inteira (5 partes)?
Abraços
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