Em comemoração ao primeiro ano do blog Ecclesia Semper Reformanda Est, reuni alguns textos, de professores e colegas do seminário, com o tema livre, paraque possamos aprender juntos e mais de algumas mentes cristãs pensantes (expressão que infelizmente soa contraditória na igreja pós-moderna). Aproveite:
O CRISTÃO FRENTE ÀS AUTORIDADES
“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por Ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e as autoridades que existem foram por Ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados não são para temor; quando se faz o bem, e sim quanto se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência”. (Rm 13.1-5).
Neste texto Paulo está afirmando sobre a necessidade dos crentes de Roma estarem sujeitos às autoridades romanas. De fato, Paulo vê a autoridade como instituição divina. Cabe a ela promover o bem e a ordem, castigar o que é mal e, deste modo preservar a vida. A anarquia não é recomendável em nenhuma sociedade, daí toda organização humana ter suas leis e autoridades civis, religiosas, etc. Não há sociedade que sobreviva sem autoridades que atendam para a manutenção da justiça e da ordem.
No entanto, é necessário que tenhamos alguns cuidados ao lidar com o texto Paulino mencionado acima, pois é possível que ocorra alguns desvios na sua compreensão. Por exemplo, alguns podem assumir uma postura de submissão e obediência às autoridades de modo acrítico, cego. E, ainda, muitos se apropriam desse texto para fazer valer sua autoridade. Entretanto, há perigos ao assumirmos esta postura, haja vista que as autoridades podem assumir determinadas posturas explicitamente contrárias aos princípios morais contidos na Bíblia. Sendo assim, qual deve ser a postura do cristão? Obedecerá a autoridade e se posicionará contrariamente à Palavra de Deus? Devemos obedecer cegamente às autoridades humanas porque foram instituídas por Deus? O que fazer? É recomendável atentarmos para as palavras de Pedro, proferidas diante das autoridades judaicas: “Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus?” (At 4.19). Logo há ocasiões em que prevalecerá a orientação divina.
Devemos ter em mente que uma vez que a autoridade é instituída por Deus, a mesma não é funcional em si mesma, ou seja, ela é funcional e útil à medida em que promove o bem, a ordem e censura o mal. No entanto, quando a autoridade se opõe aos princípios do Deus que a instituiu a mesma perde seu sentido e eficácia. Bonhoeffer afirma: “O ser da autoridade está vinculada a uma incumbência divina. Só no cumprimento desta seu ser se realiza. Uma total apostasia de sua incumbência tornaria questionável o seu ser” (1).
Sendo assim, a autoridade não é fenômeno autônomo, independente, de modo algum! É “ministro de Deus” e possui sua razão de ser a partir dessa relação. Quando há clara oposição a Deus, evidentemente que essa autoridade deve ser questionada e criticada pelos crentes. Lembremos dos reis de Israel citados no Antigo Testamento, esses eram autoridades dadas por Deus e toda a nação israelita devia obediência ao monarca instituído por Deus (Dt 17.15; I Sm 8.11-17). O mesmo era considerado “ungido do Senhor” (ISm 10.1; 2 Sm 5.3), no entanto, não poucas vezes vemos profetas com dedo em riste na “cara” do “ungido”, apontando lhes os pecados e demonstrando nenhuma submissão para com o rei desviado (1 Rs 13; 1 Rs 16.1-7; 1 Rs 18.1-19; Jr 22.1-9). Por que isso? Estes homens não estariam insurgindo-se contra a autoridade? Não. A questão é simples: estes reis por terem se afastado dos princípios éticos e morais contidos na Lei de Yahweh, passaram a ter a autoridade que possuíam passível de questionamento e inclusive afronta por parte dos profetas.
Romanos 13.4 nos auxilia ainda mais na compreensão dessa questão, concedendo-nos critérios adequados para sabermos quando a autoridade de fato está funcionando adequadamente ou cujo poder de fato vem de Deus. Perceba que a autoridade é “ministro de Deus para teu bem (...) para castigar o mal”. Toda autoridade genuína deve passar por esse crivo: “promoção do bem e castigo do mal”. Diante disso podemos perguntar: É autoridade de Deus aquela que promove a opressão de seu povo e acoberta a corrupção? É autoridade que vem de Deus aquela que promove a guerra e a fome? É autoridade que vem de Deus aquela que privilegia os poderosos em detrimentos dos menos favorecidos? É autoridade que vem de Deus aquela que aprova o aborto, casamento homossexual e a eutanásia? Evidentemente que não, pois contrária o amor e santidade do caráter de Deus. Logo, um cristão genuíno não pode se submeter e até mesmo aceitar pacificamente, qualquer autoridade que defenda tais questões contrárias ao caráter de Jesus Cristo. Nesse caso é justo que se ouça a Deus e não aos homens.
1 BONHOEFFER, Dietrich. Ética. 6. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2002. p. 188.
Fernando Albano, Presbítero da AD em Joinville; Licenciado em Ensino Religioso – UNIVILLE, Mestrando em Teologia – EST. Professor de Teologia no CEEDUC Joinville e no SETESC - Blumenau.
Ave Crux, Unica Spes!



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