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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Série Aniversário 1 ano Ecclesia Reformanda: Eu protesto, tu protestas – nós protestantes! - Por Regina Sanches

Em comemoração ao primeiro ano do blog Ecclesia Semper Reformanda Est, reuni alguns textos, de professores e colegas do seminário, com o tema livre, para que possamos aprender juntos e mais de algumas mentes cristãs pensantes (expressão que infelizmente soa contraditória na igreja pós-moderna). COMO ALGUNS PASTORES HOJE, QUE APOSTATAM DA FÉ, PREGAM HERESIAS E VOCIFERAM QUE CRÍTICOS NADA ACRESCENTAM, ESTA É UMA BOA REFLEXÃO. Aproveitem:

A REFORMA PROTESTANTE

A Reforma Protestante foi como um vento forte que passou pela Europa no século XVI. Ela fez coro com os movimentos culturais do humanismo e do renascimento, durante o final da Idade Média, em resposta à crise européia neste mesmo período, causada pela insatisfação econômica da época, as guerras, insatisfação com a hierarquia eclesiástica e o abuso da igreja cristã ocidental.


Alguns lemas são próprios da Reforma Protestante, como: Sola Fide, “somente a fé”, Sola Gratia, “somente a graça”, Sola Scriptura, “somente a Escritura”, coram Deo, “diante de Deus” e Christus pro Me,”Cristo por mim”. E idéias como: o sacerdócio universal de todos os crentes e a justificação pela graça mediante a fé, também são características do movimento protestante.


Os nomes associados ao movimento da reforma são do monge agostiniamo Martinho Lutero (Alemanha), mas também de João Calvino (Genebra), Úlrico Zuinglio (Suíça), Savonarola (Itália), João knox (Escócia) etc.

O próprio nome dado ao movimento já é bastante significativo: Reforma – que significa dar nova forma, refazer com uma forma diferente; Protestante – vem de protesto que significa fazer oposição, resistir a algo, não admitir. Na realidade, existiram vários movimentos, antes da Reforma, de resistência ao sistema da igreja cristã da época, que em função do poder e do enriquecimento controlava a fé dos féis, não permitindo o acesso livre às Escrituras e o seu entendimento.


Essa ignorância em relação às Escrituras, muito conveniente à hierarquia eclesiástica da época, levou as pessoas a crerem que seus pecados somente poderiam ser perdoados através de pesadas penitências ou com o pagamento de indulgências. Foi contra isso que os reformadores protestaram, pois ao lerem os textos bíblicos descobriram que o perdão dos pecados foi dado gratuitamente por Jesus Cristo em sua morte na cruz e em sua ressurreição, e o acesso a esse perdão se dá mediante a fé nessa obra salvadora. Compreenderam que a obra de Cristo para nossa salvação era grandiosa demais para ser retribuída com dinheiro ou qualquer outra “obra” humana.


Também descobriram que todas as pessoas possuíam livre acesso a Deus através de Jesus Cristo, e não necessitavam de intermediários nessa relação, principalmente para o perdão dos pecados, embora não se dispensasse a existência das igrejas organizadas, como meio coletivo de vivência da fé e do que eles chamavam de sacerdócio universal daqueles que crêem. Para se verificar essas verdades era preciso ler e conhecer as Escrituras que, para os reformadores, poderiam ser entendidas tanto pelo clero, quanto pelas pessoas mais simples, pois quem possibilitava o seu entendimento era o Espírito Santo de Deus. Era necessário, tão somente, que elas fossem traduzidas para as línguas faladas pelos povos, o que Lutero empreendeu para a língua alemã (pois até então a Bíblia somente poderia ser lida em latim).


No pensamento de Lutero a vida cristã no mundo se dava coram Deo, “diante de Deus”, e no reconhecimento do Christus pro Me, “Cristo por mim”, ou seja, na compreensão de que Jesus Cristo deu-se completamente por nós a fim de nos salvar, e de que a vida cristã se dá na relação continua com Deus e diante Dele, com liberdade e perdão. Nas 95 teses que ele escreveu e afixou na porta da Catedral de Wittenberg no dia 31 de outubro de 1517, deixou claro que os líderes da igreja da época não poderiam continuar a enganar o povo afirmando que o perdão dos pecados, portanto a salvação, se dava por meio de pagamentos em dinheiro, pois não era verdadeiro e somente servia ao enriquecimento de quem ensinava isso.


Mas, outro lema importante da Reforma, era Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est, isto é “Igreja reformada sempre se reformando”, ou seja, a igreja deveria constantemente se refazer, principalmente das tendências humanas de dominar outros e, por meio disso, obter poder e riqueza. É nesse sentido que afirmamos que a Reforma Protestante somente possui sentido para nós se os seus princípios e o seu espírito se mantiver atual e tão intenso que gera um re-formar, ou seja, dar nova forma à igreja e à nossa vida cristã no mundo, à luz das Escrituras Sagradas e do conhecimento de Jesus Cristo.


Vivemos hoje um sistema de neo-indulgências, onde através de discursos supostamente bíblicos se levam multidões ao “investimento” financeiro e práticas de obras diversas para a aquisição do perdão ou das bênçãos de Deus. Falam como se Deus fosse um tão igual a nós que nos relacionamos com Ele na base da troca. Eu dou cem, Deus me dá mil, eu dou mil, ele me dá dez mil... Usa-se, para isso, textos bíblicos interpretados conforme à conveniência de cada um. Novamente constroem-se impérios com recursos em nome da fé. E o povo, distanciado das Escrituras, agora não mais por ser proibida a sua leitura, mas por ele se situar na condição de massa conduzida por uma minoria se deixa induzir em troca de falsas promessas de enriquecimento fácil e milagroso.


Novos sistemas de dominação e manipulação foram forjados em nome da fé, que conduz certamente ao enriquecimento sim, mas somente de uma minoria, que possui o acesso aos benefícios do que eles chamam de “benção da prosperidade”. Mas a grande maioria que, na boa parte das vezes investe seus parcos recursos nessas promessas, continua aguardando escatologicamente o momento em que terá todos os seus problemas resolvidos.


De fato as Escrituras estão sendo agredidas em seu conteúdo mais precioso, o conhecimento de Jesus Cristo e sua graça salvadora. Também está sendo violentada ao afirmarem que ela diz o que não está dizendo, e que são seus ensinos que fundamentam esse abuso dos fiéis. Isso é algo anti-bíblico e desumanizante.


A Bíblia lida e corretamente vivida conduz à liberdade, ao bem-estar humano e social, ao tratamento digno entre as pessoas e ao amor que dignifica e constrói. Ela é o principal meio pelo qual conhecemos a Deus e a obra de salvação realizada por Jesus Cristo. Mas, é preciso que seja lida por todos e por cada um, detidamente e com a certeza de que o próprio Deus iluminará o entendimento, sem se dispensar com isso o papel da razão humana que ajuda no seu esclarecimento.


É necessário, portanto, que a Bíblia volte a ocupar o lugar no culto e na vida das igrejas que se afirmam cristãs e procedentes da Reforma. Lugar esse que hoje, no fluxo do personalismo atual, tem sido ocupado, muitas vezes, por líderes que estão mais preocupados com a mídia, com títulos eclesiásticos e com a auto-promoção do que com o cuidado compassivo do povo. Hoje em dia é muito comum que nomes de líderes diversos, sejam mais conhecidos que o próprio nome de Jesus Cristo. Em lugar de esforços pelo ensino das Escrituras, é comum se ocupar o tempo elaborando e empregando estratégias das mais diversas para um crescimento rápido e competitivo das igrejas, o que acaba por substituir também a verdadeira evangelização que leva as pessoas a uma vivência da fé tão real, que harmoniza a vida e transforma a realidade.


Na verdade, não basta se afirmar protestante para o ser de verdade. Ser protestante, historicamente, não é fazer parte exatamente de uma instituição, mas de um movimento, que possui como característica o almejar viver de forma diferenciada o evangelho do Senhor Jesus Cristo como caminho para o perdão, a salvação e a plena liberdade humana; possuir as Escrituras Sagradas como para a compreensão da fé e sua vivência no mundo e a colocar em condição de primazia na vida da igreja.


Ser protestante é ser inconformado com os sistemas de dominação que utilizam discursos religiosos para alcance de interesses particulares, e lutar veementemente contra isso. É também ser radical em função da transformação da realidade social. É crer que todos, igualmente, possuem livre acesso a Deus, e que Jesus Cristo perdoa gratuitamente a qualquer ser humano, mediante a fé; é afirmar que nossa vida deve ser vivida diante de Deus e por meio de Cristo, que nos liberta no mundo.


Ser protestante é entrar na fileira daqueles que no decorrer da história reagiram aos abusos em nome da fé, e encontraram na graça de Jesus Cristo, através da fé possibilitada pela leitura das Escrituras, a verdadeira liberdade.


Pra. Regina de Cássia Fernandes Sanches -Mestre em Teologia e Práxis (ISI/FAJE), Mestre em Missiologia (FTSA) e professora de Teologia Latino-americana do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix, e no Setesc Blumenau.

Para ler mais sobre protestos e críticas:

Basta ou não basta? Julgar ou não julgar? por Renato Vargens

Paganismo Gospel - pr João

Obediência as autoridades - Fernando Abano

Ave Crux, Unica Spes!

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