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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Especial Reforma, Quarta parte: Apontamentos para uma Reforma Teológica/Prática no Brasil (1)- por Alberto Oliveira

Especial Reforma Protestante 492 anos

Quarta parte: Apontamentos para uma

Reforma Teológica/Prática no Brasil (1)


“Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam. Filipenses 3.17 (ACRF)


Eu defendo a ideia de uma reforma na Igreja nacional, e esta já está tardando. Autores como Paulo Romeiro, Marília Camargo, Augustus Nicodemus, Renato Vargens, Ciro Zibordi, Danilo Fernades, entre outros tem feito um ótimo trabalho apologético, seja em livros seja na internet. Mas seu trabalho poderia ser facilitado com uma reforma na Igreja brasileira. Uma teologia feita aqui, bíblica, levando em conta toda a tradição histórica reformada, mas sem ser puramente “enlatada” e importada seria um bom começo para esta reforma.


Diversos fatores dificultam a realização de uma Reforma verde e amarela. A desunião das igrejas; a preguiça de se pensar; uma ênfase desproporcional na urgência de evangelizar (que acaba gerando filhos de Deus perdidos dentro de clubes sociais denominados igrejas); a falta de conhecimento de teologia bíblica, sistemática e histórica (todas clássicas) gerando uma teologia prática adoecida; aculturação realizada pelos primeiros evangelistas que dificulta o resgate de uma tradição brasileira sadia – já que tudo foi demonizado; multiplicidade de cultura – o que torna difícil uma cultura nacional, em um país continental, sendo necessária uma contextualização in loco, talvez de região em região.


Antes de qualquer coisa, algo precisa ser dito. Para muitos, a teologia reformada está caduca. Jancey diz com conhecimento de causa: “O fundamentalismo, a hipocrisia, a politicagem, criaram um estado letárgico nas Igrejas Reformadas, isso no Brasil, que conheço (...). Os reformados, por favor, não me entendam mal, pois sou também um (1)”. Mas sobre os assanhados com a ideia de reformar ele mesmo alerta: “O neo-reformismo que se acautele (...) que não se crie outro vulto, outra história (...) não discordo da necessidade de mudança, porém meu medo é que a mudança tem acontecido na abordagem teológica e não na conduta cristã. Tempo de mudança? Sim, mas no caráter que a Igreja tem testemunhado (...) a Reforma que há de impactar o mundo é a Reforma dos valores normativos comportamentais (2)”. Para pessoas descontentes com a autoridade bíblica, para os libertinos e relativistas e para os pecadores convictos, que gostariam de uma leitura bíblica a seu bel-prazer, podem se valer da necessidade de uma Reforma nacional para que toda uma agenda anticristã seja levantada. Subjetivar e relativizar não são novidades. E contextualizar não significa dizer que o texto bíblico é ultrapassado e necessita ser re-avaliado em uma sociedade pluralista que caminha em um momento de diversidade. Assim como a tradição cristã (lembrando que doutrinas e confissões de fé são humanas, passíveis de erros e podem ser repensadas). Pelo contrário contextualizar as Escrituras significa aplicar uma verdade eterna agora, com o mesmo significado e relevância que teve em seu surgimento histórico. E isto deve influenciar o caráter e testemunho da Igreja.


As grandes confissões de fé e catecismos têm, segundo Guthrie (3): “uma autoridade temporária, provisória e relativa (...) porque reconhecem a autoridade suprema das Escrituras.” O problema como destaca Nicodemus (4) em seu livro é o de querer “criar tudo de novo em cada geração”. Em seu texto ele ataca os que se valem da expressão: Ecclesia Reformata, Semper Reformanda Est (Igreja Reformada, Sempre se Reformando) para justificar que é preciso sempre mudar e adaptar a interpretação bíblica ao contexto. Mas veremos mais a frente que o contexto deve ser interpretado pela Escritura, tendo esta primazia absoluta por ser Palavra de Deus. Nicodemus (5) divide reformados e reformistas: “Não preciso dizer que acredito que verdadeiros reformados estão sempre abertos para mudar, desde que esta mudança implique abandonar crenças e práticas erradas e adotar outras mais de acordo com a Bíblia. Quem vive se reformando teologicamente, por acreditar na evolução da verdade, não é reformado, mas reformista.Por todo meu texto tenho tentado provar isto, que a verdade bíblica não muda nem evolui, mas sua aplicação tem sido prejudicada por uma leitura fora do contexto nacional, ou seja, devemos reformar nossas práticas e interpretações submissamente ao que o Senhor expressou como desejo missionário em Sua Palavra.


A América Latina foi o berço de dois movimentos teológicos: o da Teologia da Libertação (TdL) e da Teologia da Missão Integral (TMI). Um de cunho mais católico e outro de cunho protestante e ambos denominados por estudiosos por teologia de contexto; o que mesmo que receba críticas dos mais ortodoxos, tem seu valor na tentativa de tornar o anúncio relevante; e não apenas agradável como fazem o Movimento de Crescimento de Igreja (MCI) e a Teologia da Prosperidade.


Devo dizer, mesmo que eu seja apedrejado, que a TdL tem seu mérito, por sua inicial preocupação com o social – mesmo que este seja o mais próximo de teologia que ela se aproxima; e por ter sido pensada e elaborada aqui na América Latina. Mas também tem seu demérito, sendo seu profundo envolvimento Marxista (mesmo que negado por seus adeptos) e sua tentativa de tornar massa em minoria, extinguindo esta, tornando todos iguais (o que é de uma utopia terrena, algo que só veremos no Reino Celestial – algo que marxistas negam). Seu precursor foi Rubem Alves com sua tese Da Esperança - que iria se chamar Da Libertação (6) e seu organizador e difusor foi Gustavo Gutiérrez. Segundo Jansey, a TdL “nasceu da confluência de todas as Teologias que visavam a ação social, política e moral da Teologia em si (...) Por Gutiérrez a TdL é uma crítica a práxis histórica do Cristianismo, desapegada completamente dos ideais ortodoxos, que foram vistos como manipuladores (7)”. Este talvez o seu erro – o abandono a ortodoxia bíblica, dando ênfase ao Marxismo.


Já o modelo que me agrada mais, por seu modelo ser é bíblico, com uma visão de Reino de Deus, é o da TMI. Esta visão de reino é cósmica, nas palavras de Padilha: “o evangelho é uma mensagem cósmica: revela um Deus cujo propósito abarca o mundo inteiro (...) o indivíduo não existe isoladamente e portanto não se pode falar de salvação sem que se faça referência à relação do homem com o mundo do qual ele faz parte” (8). Este tem disposição em dialogar tanto com a TdL, quanto com a Fé Reformada (bebendo profundamente desta). A busca pelas respostas ao contexto local não é mais encontrada em Marx. Mas o elemento que tem primazia e que dá a direção e diretriz à abordagem prática e espiritual é a Palavra de Deus (9). Segundo Padilha, a TMI promove “uma reflexão em torno do Evangelho e (do) seu significado para o ser Humano e a sociedade na América Latina”, como um todo, integralmente, de modo tanto sistemático como prático (10). Sanches aborda que a TMI entende a igreja como comunidade apostólica “portanto, comissionada a missionar”, sendo que esta missão não pode ser reduzida exclusivamente a propagação da fé cristã e fundação de novas igrejas. Ela entende que: “A Igreja não é uma entidade isolada do mundo, mas ela o integra e participa direta ou indiretamente de sua transformação”. Assim sendo ela deve cooperar com esta transformação não só em anúncio, mas em vivência prática, “mas deve fazê-lo teologicamente, visto ser ela a Igreja do Senhor Jesus Cristo e não uma entidade social qualquer (11).”


Continua...


Referências:

(1) Tulio Jansey, Filosofia e Teologia no século XXI, pg 242;

(2) idem, pg 246-247;

(3) Shirley C. Guthrie - Sempre se Reformando, pg 57;

(4) Augustus Nicodemus – O que Estão Fazendo com a Igreja, pg 194;

(5) idem;

(6) Regina Sanches - Teologia da Missão Integral, pg 41 e Tulio Jansey, Filosofia e Teologia no século XXI, pg 229;

(7) Tulio Jansey, Filosofia e Teologia no século XXI, pg 230;

(8) René Padilla – Missão Integral, pg 15;

(9) Regina Sanches - Teologia da Missão Integral, pg 133;

(10) René Padilla – Missão Integral, pg 13;

(11) Regina Sanches - Teologia da Missão Integral, pg 145;


Veja:

Primeira parte: Necessidade de aprender e relembrar;

Segunda parte: Ausência de uma Reforma Tupiniquim;

Terceira Parte: Necessidade de Uma Reforma no Brasil;


Ave Crux, Unica Spes!


4 comentários:

Anônimo disse...

Olá irmão Alberto!

Conforme prometido, aqui está http://timedecristo.wordpress.com/

fique com Deus

Jose

Pr. Jonatas Rodrigues disse...

Olá meu irmão o seu blog é um show de talento e unção, parabéns pelo aniversário, e essa matéria interessantíssima, parabéns valeu pela leitura, agradável e muito produtiva!Fique na Paz!

Francikley Vito disse...

Um reforma é necessária, muito necessária; e as vezes eu fico pensando quando ela virá. Espero que logo.

Alberto M. de Oliveira (Betochurch) disse...

Valeu José, muito obrigado pelo apoi.

Obrigado pr Jonatas, Deus o abençoe.

Também espero Francikley, mas sem muita esperança, entende? Conto mais com uma investida em missão integral - e uma igreja emergenta - mas ortodoxa em doutrina - tipo Mark Driscoll.

Valeu pessoal, a visita de vcs me deixam honrado.

Alberto

Ela não quer sua pena. Quer sua ajuda.


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