Especial Reforma Protestante 492 anos
Quarta parte: Apontamentos para uma
Reforma Teológica/Prática no Brasil (2)
“Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam.” Filipenses 3.17 (ACRF)
Em se tratando de teologia, a renovação proposta pela TMI me agrada. Padilla enumera três pontos para uma renovação contextualizada da teologia que eu resumo (1): Sua base é a Palavra de Deus (esta tem primazia sobre o contexto); o contexto desta teologia deve ser a situação histórica concreta, diferente da teologia feita importada ou da feita em gabinete cheia de rótulos e “achologias”; o propósito desta teologia (como deve ser de toda e qualquer saudável) é a obediência ao senhorio de Jesus, sendo esta funcional, realizando a função e propósito a que fomos comissionados. Há uma tensão natural em todo projeto que se envolva com Ação Social e na TMI isto não é diferente. Mas esta propõe uma saída. Kivitz clama para que esta tensão fique na “poeira da história” e lembra que devemos redescobrir que servir a Deus e ao próximo são sinônimos (2). Para Padilla: “Toda a necessidade humana pode servir como ponto de inserção da mensagem do evangelho na vida das pessoas ou grupos humanos. Consequentemente, não há regras fixas quanto ao que vem primeiro, a evangelização ou o serviço (3).” O testemunho cristão fica mais coerente quando a maneira de se levar salvação não segue as regras rígidas e a ênfase na pregação se une com a obra social e vice e versa (isso não significa o prejuízo de uma ortodoxia). Mandamentos como os de Tiago, sobre o cuidado e amparo de órfãos e viúvas, e com os necessitados de roupas e alimentos tornam-se mais claros (4), analisados nesta perspectiva de amor ao próximo (não só aos cristãos) como a si mesmo (5).
A ação social deve ser prática e o serviço cristão deve ser uma profecia prática de um futuro melhor, como afirma Kivitz, isso é alcançado através de atitudes “promotoras da justiça integral que sinaliza o reino eterno e atrai o coração do homem ao Deus que, em Cristo, redime, liberta e transforma. Nesse sentido, o serviço cristão é profético (6).” Devemos priorizar o alvo da obra redentora de Cristo – o ser humano. Cópias de prédios, mega-templos inspirados nos modelos norte-americanos, canais de TV e passeatas entre outras obras de elevado ônus, não podem consumir recursos tanto humanos quanto financeiros em detrimento a ajuda social. Kivitz faz um importante alerta: “o serviço será a resposta cristã capaz de justificar a existência e permanência da Igreja na sociedade. Chegará o tempo em que a ociosidade dos templos evangélicos será imperdoável. O pecado que as comunidades cristãs cometem hoje, ao mobilizarem seus recursos para servir apenas o seu público interno, será o algoz de amanhã (7).” Padilla pode complementar quando afirma que: “O ministério integral se ajusta à situação local e estimula o aproveitamento de recursos humanos e econômicos locais (8).”
Volto a frisar, como um simpatizante da ortodoxia reformada que a formação de uma teologia nacional, e ou o aproveitamento da Teologia da Missão Integral (TMI), para que uma ou outra possa auxiliar uma Reforma nacional, tornando a práxis brasileira mais bíblica e no centro da vontade de Deus, não significa um abrandamento, ou uma diluição da ortodoxia. Pelo contrário, para uma prática correta (ortopraxia) faz-se necessário uma teoria correta (ortodoxia), ao invés do reducionismo da missão cristã, que mais se assemelha com um catequizar jesuíta, ou no outro extremo uma “porta da esperança gospel”. Tanto Padilla, quanto Kivitz, ou ainda Sanches nos lembram de um mote do Primeiro Congresso Internacional sobre Evangelização Mundial (Lausanne I, 1974) que afimou: a missão da Igreja é levar o Evangelho todo, para o homem todo. Se as ações práticas para que toda a missão em uma visão de Reino gera visibilidade e mostra que o amar ao próximo é mais do que palavras, “a tarefa do evangelista na comunicação do evangelho não é facilitar, a fim de que as pessoas respondam positivamente, mas esclarecer (9)”. Ou seja, a mensagem proclamada deve ser bíblica, corretamente anunciada, mas seu anúncio carece de acompanhamento de ações que avalizem o amor pregado.
O grande problema da TMI consiste em falta de material escrito e constante ataque movido por interesses escusos como os feitos pelo Movimento de Crescimento de Igreja – MCI e pela Teologia “pragmática” da Prosperidade (TP), que priorizam números, e não qualidade, sendo infelizmente o modelo abraçado pela grande maioria das igrejas nacionais, além dos ataques feitos pelos ortodoxos estéreis em seus gabinetes. Além de Orlando Costas - editoras, acordem, não há um livro deste homem em português (10), Samuel Escobar e René Padilha, pouquíssimo se conhece ou se divulga. Devemos festejar e prestigiar o lançamento do livro Teologia da Missão Integral, da Regina Sanches (11), sendo um dos únicos materiais de pesquisa brasileiro publicado.
De igual modo, há um movimento que me chama a atenção e quero ler mais sobre o tema, e observar mais seu desenvolvimento, que é o da Reformissão do qual acabei de adquirir o livro (12), que prega um cristianismo mais relevante, mas sem comprometer a ortodoxia. Há bons trabalhos sobre a mesmo ideia que tenho usado no decorrer do texto: Sempre se Reformando do presbiteriano Shirley C. Guthrie, Incômodo do Marco André, Quebrando paradigmas do Ed René Kivitz, Teologia da Missão Integral de Regina Sanches, Missão Integral e Servindo com os Pobres na América Latina do René Padilla. Mesmo alguns sendo estrangeiros, suas observações servem para instigar o pensamento sobre formas de ser relevante, sem comprometer o conteúdo da mensagem como acaba acontecendo com a Igreja Emergente Liberal e o MCI e a TP.
Creio ser necessária uma teologia que oriente nossa prática abaixo da linha do Equador, que seja pensada aqui. Lehmann, citado por Guthrie, diz que: “o Deus dos cristãos é aquele que se tornou um ser humano, por amor aos seres humanos, para tornar e manter humana toda a vida humana (13).” Nada mais integral que esta ideia.Nada mais lógico que trazer o ensino bíblico, nesta perspectiva ao nosso contexto. Devemos sem limites voltar a nos preocuparmos com o alvo da salvação alcançada através de Cristo – a vida humana e seu viver. Devemos abandonar o “aculturismo” e o antropocentrismo (que está presente desde as músicas em primeira pessoa, até nossa relação egoísta com Deus). Barbosa observa que: “o encontro com o Deus triúno é a conversão radical dos nossos relacionamentos, transformando a natureza corrompida de nossas famílias e igrejas em verdadeiras comunidades onde cada pessoa é nutrida e amada com respeito, valor e identidade próprios de cada um. (14)” Nada mais integral que o respeito ao ser humano completo, e a sua convivência sadia em comunidade. Soa-me mais parecido com a vida em abundância (15), quando o “eu se transforma num glorioso nós (16)” em Cristo, com Cristo e com o próximo e para isso não preciso ser “amigo do mundo”, mas importar com as pessoas que habitam nele da mesma forma que Jesus se importou.
Devemos lembrar o valor e a dignidade da vida humana, pois se esta é importante para Deus ao ponto de enviar Seu Único Filho por amor, deve receber igual importância de nossa parte. Não podemos fazer uma missão e evangelização desencarnada, como denuncia Padilla. Diz ele: “(a evangelização) estava dirigida para a salvação da alma, mas passava ao largo das necessidades do corpo. Ela oferecia reconciliação com Deus por meio de Jesus cristo, mas deixava de lado a reconciliação do ser humano com o seu próximo, que se baseia no mesmo sacrifício de Jesus Cristo. Ela (...) omitia toda e qualquer referência a justiça social enraizada no amor de Deus pelos pobres (17).” Uma ideia interessante no texto de Guthrie, é que podemos reconhecer a presença de Deus, no qual os cristãos crêem, nas pessoas quando estas protegem a dignidade e o valor especialmente da vida humana indiferente de sua cor, raça, sexo, amizade, se digno e merecedor ou não a nossa vista (18). Isso é também evangelizar. Como disse Francisco de Assis:"Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras." , ou ainda como ouvi de Kivitz: "Deus não é um solucionador de problemas. É um solucionador de pessoas. Deus não prometeu fazer nossa vida melhor. Prometeu nos fazer homens e mulheres melhores: semelhantes ao Seu Filho.” E Seu Filho nos deixou o mandamento e exemplo de amar e lutar pelo bem-estar do próximo. Assim nós mostramos que nos tornamos melhores.
Concluo esta série afirmando: Urge uma reforma na Igreja brasileira. Nas palavras de Padilla: “A igreja não é um clube religioso ultramundano que organiza excursões ao mundo para ganhar adeptos mediantes técnicas de persuasão (19).” Antes ela deve ser um agente de reconciliação que leva não só a mensagem das Boas Novas, mas age para minimizar a degradação do mundo (Evangelho completo). Desde o ensino básico (abolindo ostracismos, preconceitos e dualismos entre santo e profano); como a ação, devemos ser bíblicos, desempenhando um ministério diaconal aos moldes de Jesus – o maior (Senhor e) Servo (20). Uma mudança do pragmatismo exacerbado a busca de resultados (que se resumem a números e prédios), passando a um Evangelho de amor. Amando sem interesse em números, e mesmo que sem as pessoas se converterem. “A missão cristã não pode ser descrita apenas em termos de ação e projetos, implica amor e aceitação. A encarnação não deve ser vista apenas como processo de aculturação e integração, mas como carinho de identificação pessoal e amizade. O índio, o pobre, o idoso, o enfermo, são pessoas e não problemas, devem ser recebidos e amados pelo que são, e não pelo que virão a ser” (21). É só lembrarmos que Jesus amou o jovem rico, mesmo sabendo que este não O seguiria (22). Uma reformulação, modelando o presente ao conceito bíblico, aprendendo com a tradição, utilizando-se de dois fundamentos (1 ser relevante; 2 não comprometer a mensagem de Jesus) para cumprir integralmente os dois mandamentos: “1 Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força (...) 2 Amarás o teu próximo como a ti mesmo”(23).
Referências
(1) René Padilla – Missão Integral, pg 113-114;
(2) Ed René Kivitz – Quebrando Paradigmas, pg 93;
(3) Tetsunao Yamamori, Rene Padilla e Gregorio Rake – Servindo com os Pobres na América Latina, pg 33;
(4) Tiago 1.27 e 2.15-17;
(5) Marcos 12.33;
(6) Ed René Kivitz – Quebrando Paradigmas, pg 92-93;
(7) idem, pg 92;
(8) Tetsunao Yamamori, Rene Padilla e Gregorio Rake – Servindo com os Pobres na América Latina, pg 38;
(9) René Padilla – Missão Integral, pg 50;
(10) de fato, há um livro do dr Carlos Caldas, pela editora Vida que fala sobre a contribuição de Orlando Costas para a Teologia Latino Americana;
(11) http://ecclesiareformanda.blogspot.com/2009/09/lancamento-do-livro-teologia-da-missao.html;
(12) ver http://reformissao.com.br/livro.html;
(13) Paul Lehmann –Ethics in a Christian Context, pg 85, citado por Shirley C. Guthrie - Sempre se Reformando, pg 144-145.
(14) Ricardo Barbosa – Janelas para a Vida, pg 18-19, citado por Marco André –– Incômodo, pg 123;
(15) João 10.10;
(16) Ricardo Barbosa – Janelas para a Vida, pg 18-19, citado por Marco André –– Incômodo, pg 123;
(17) Tetsunao Yamamori, Rene Padilla e Gregorio Rake – Servindo com os Pobres na América Latina, pg 27;
(18) Shirley C. Guthrie - Sempre se Reformando, pg 144;
(19) René Padilla – Missão Integral, pg 37;
(20) Mc 10.21;
(21) Ricardo Barbosa – O Caminho do Coração, pg 74-75, citado por Marco André –– Incômodo, pg 127;
(22) Mc 10.21;
(23) Mc 12.30-31.
Veja:
Primeira parte: Necessidade de aprender e relembrar;
Segunda parte: Ausência de uma Reforma Tupiniquim;
Terceira Parte: Necessidade de Uma Reforma no Brasil;
Quarta Parte: Apontamentos para uma Reforma Teológia/Prática no Brasil
Ave Crux, Unica Spes!



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