Especial Reforma Protestante 492 anos
Segunda Parte: Ausência de uma Reforma Tupiniquim
“Esta terra, senhor em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar
dar-se-há nela tudo”. Pero Vaz de Caminha
O descobrimento do Brasil e a Reforma Protestante aconteceram em datas próximas. O país do futebol não havia ainda completado a maioridade quando as teses de Lutero vieram a público. Mas a distância entre um e outro é maior que a distância entre Wittenberg (o “rio Ipiranga” da Reforma) e o Monte Pascoal (levou esse nome porque no oitavo dia da Páscoa cristã, foi à primeira elevação de terra avistada da então batizada terra de Vera Cruz, nosso Brasil). Claro que devo ter bom senso de entender que não há o que reformar em uma terra que começa a ser explorada (em todos os aspectos). Mas, dada a maneira em que foi formada, tanto a cultura como a espiritualidade nacional, a reforma já se fazia necessária em poucos anos.
Os dois (Reforma e descobrimento) têm um fator em comum: a era da navegação e das descobertas, e, como vimos no texto passado, estes foram dois dos fatores determinantes e favorecedores para a Reforma (1). Mas esta demorou a desembarcar no Brasil. Aliás, o próprio romanismo Português e a intenção de cristianizar (muito diferente de evangelizar) demorou a atracar em solo nacional.
Do apelo missionário de Pero Vaz de Caminha em sua carta ao rei de Portugal e a primeira missa, a enfim chegada da primeira missão (ainda que fosse jesuíta) passaram-se quarenta e nove anos. A própria carta de Caminha, que fora arquivada nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, ficou 300 anos engavetada até “ser descoberta”. Em determinado momento emocionante, Caminha escreve: “O melhor fruto que nela (o Brasil) se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza (rei de Portugal) em ela deve lançar” (2). Infelizmente:
1. Demorou 49 anos para que este apelo fosse atendido, ainda que sem saber; além de ser um processo de catequização, ou seja, uma cristianização forçada ao invés de evangelização;
2. O apelo de Caminha em si demorou três séculos a ser encontrado e seu apelo descoberto. Será que nossa “memória curta”, e o prazer em ignorar a história têm origem lusitana?
O fato é que os jesuítas, ordenados e comissionados por Inácio de Loyola, foram os primeiros missionários enviados ao Brasil. Sendo que, os protestantes aportaram aqui somente em 1555 (3). Posto isto, devemos fazer algumas considerações para que possamos caminhar em uma mesma linha de raciocínio:
A. O campo missionário brasileiro, além de sua vasta população indígena (que de três uma: ou foram cristianizados, ou foram perseguidos e isolados ou foram dizimados), fora consideravelmente ampliado com o fluxo de escravos para cá trazidos, aumentando assim o número de não-alcançados. Fatores então que somados (várias crenças e religiões tribais + imposição de uma nova fé + religião oficial) resultou, em grosso modo, no sincretismo contemporâneo, onde principalmente o catolicismo romano e o neo-pentecostalismo mesclam: paganismo, catolicismo, cristianismo, espiritismo, empreendedorismo comercial e cultos africanos; gerando um cristianismo sincrético e ou nominal, muito aquém do reformado e mais distante ainda do modelo original apostólico, sendo que, além de tudo, este é pior do que o cristianismo medieval que fora combatido pela Reforma;
B. Se o clero católico romano europeu não era piedoso e fiel como deveria ser, os missionários romanistas que aqui chegavam não diferiam desta “qualidade”. Agrava-se o fato que o plano de colonização português era bem peculiar (envolvendo bandidos, desocupados, vagabundos, e exploradores gananciosos). O conhecimento teológico era impuro e ou incompleto. Só como exemplo, o famoso jesuíta Anchieta, elaborou o primeiro catecismo tupiniquim, onde deixou de mencionar a ressurreição de Cristo (4), fazendo valer a advertência de Paulo: “E, se Cristo não foi ressuscitado, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.” (5), ou seja, pergunto como pregar um cristianismo sem mencionar a ressurreição?
C. A Reforma deu-se na Europa. O que aqui chegou, anos mais tarde foram documentos, conclusões e ensino sobre os eventos externos, inseridos em outro contexto. Muitos dos cristãos reformados e da sua religião e culto vieram com colonizadores da Holanda, Alemanha entre outros países. Essa segunda leva de colonizadores diferia muito dos portugueses, mas, não vieram para evangelizar. Os cultos e igrejas nasciam para que eles pudessem continuar sua fé. Mais tarde, com o aparecimento dos evangelicais, dentro do movimento reformado com os re-avivamentos, nasceu a missão moderna. Mas ainda assim, o ensino reformado trazido a nós fora criado em um contexto Europeu e sua mecânica e aplicação consistiu em reformular a Europa. Aqui, bastava impor e ajustar o Novo Mundo aos seus decretos, confissões de fé e catecismos, pensavam eles.
Existe uma máxima, totalmente aplicável que diz o seguinte: “a teologia nasceu na Alemanha, amadureceu na França, envelheceu na Inglaterra, apodreceu nos Estados Unidos e hoje é consumida (estragada mesmo) na África e América Latina.” Podemos ver até na televisão (com os tele-evangelistas) a consequência disto.
É mister que se elabore uma teologia local. E esta deve não apenas ser ideológica, mas bíblica. Esta deve ser elaborada por pessoas daqui, que trabalham, sofrem, vencem, perdem, conhecem e entendem os anseios locais. O mais próximo que chegamos a isso, na América Latina foi com a Teologia da Libertação (TdL) e a Teologia da Missão Integral (TMI) – trataremos delas mais a frente.
Continua...
referências:
(1) Tulio Jansey, Filosofia e Teologia no século XXI, pg 137;
(2) Paulo Roberto Pereira – Os três únicos testemunhos do descobrimento da Brasil, pg 58, citado por Elben M. L. Cézar – História da Evangelização do Brasil, pg 23 ;
(3) Elben M. L. Cézar – História da Evangelização do Brasil, pg 37;
(4) idem, pg 44-46;
(5) 1Co 15.14;
veja aqui a primeira parte: Necessidade de Aprender e Relembrar.
Ave Crux, Unica Spes!





