segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Meditações em alguns dos Cinco Solas - 3

3 Sola Gratia
Um triste retorno ao “cativeiro babilônico da Igreja”

“Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece”. Romanos 9.15-16.

Coloquei no subtítulo desta reflexão o título da opera magna de Lutero propositadamente, pois, foi a revelação da graça de Deus, através do texto de Romanos, que gerou a mudança de paradigma em Lutero, impulsionado assim a Reforma Protestante. Assim, o grande alicerce da Reforma foi  a doutrina da Graça. Dito de outra maneira, o que de fato gerou a Reforma foi à controvérsia sobre a salvação do homem.  A tese sola Gratia está intimamente ligada à doutrina da depravação do homem. Dependendo do ponto de vista desta doutrina, a graça ganha ou perde primazia na história da salvação.

Em decorrência da Queda, o homem encontra-se totalmente depravado. Estudiosos preferem a expressão corrupção radical. Para estes, depravação total soa como irremediavelmente depravados e irrecuperáveis - assim como Satanás, ou seja, maus ao extremo. Deixando de lado a semântica do nome da doutrina, o fato é que ela diz que o homem está caído ao ponto tal que não pode se levantar sozinho. Paulo usou o termo “morto em seus delitos”. Precisa de ressurreição e pode alcançá-la, mas, somente pela graça divina e Seu beneplácito.

O termo confunde porque “soa” aos ouvidos como uma depravação completa; como se um “depravado total” fosse um supra-sumo de todo o mal. Não é assim. Por mais que alguém seja pecador, ele nunca atingirá o seu potencial “pleno” para o mal. Ou seja, não é que todo ímpio seja uma aberração pedófila, canibal e homicida total. O que pesa é que ele é radicalmente corrupto; assim como toda a humanidade. Mesmo que seja dada a prática de “boas obras”. A doutrina trata da natureza, não das ações. Herdamos de Adão a queda e a consequente morte. Paulo usa termos como por um homem entrou o pecado e com ele a morte, e todos pecaram, morreram e carecem da glória.

Sendo assim, a doutrina diz que TODOS pecaram e MORRERAM pelo pecado. Ora, um morto é completamente morto. Não há “partes vivas” em um morto. Parece bobagem dito assim, mas quem defende uma doutrina diferente da corrupção total, diz que o ser humano ainda possui algo de bom, que essa morte espiritual não o atingiu completamente e ele pode se achegar a Deus por seu bom desejo próprio. Ou seja, é um morto com vontade e iniciativa. Pior, o extremo que originou este pensamento diz que se o indivíduo “ficar sem pecar” durante a sua vida, nem ao menos precisa de um redentor. Ou seja, há algo de vivo no que a Bíblia afirma estar morto. Pensamento que não se sustenta. Sproul diz que “o pecado é radical no sentido em que toca a raiz de nossas vidas” (1). Vejamos o que Paulo diz em Romanos 10.12, citando os Salmos 14 e 53:

“Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.”

Nos Cânones de Dort, encontramos a seguinte descrição, precisa, da incapacidade total do Homem: “Todos os seres humanos são concebidos em pecado e nascidos como filhos da ira, incapazes de qualquer ação que o salve, inclinados para o mal, mortos no pecado e escravos do pecado. Sem a graça do Espírito Santo regenerador não desejam nem tampouco podem retornar a Deus, corrigir sua natureza corrompida ou ao menos estar dispostas a essa correção” (2).

Posto um panorama sobre a doutrina da depravação total (ou corrupção radical), avancemos no sola Gratia. Fica lógico como um conceito errôneo da consequência da queda, faz com que a salvação não seja apenas pala graça. Se o homem tem algo de bom em sua essência nata, e como pentecostais (nem todos, que fique claro) e neopentecostais gostam de enfatizar: seus atos podem (e são, em sua linha de pensamento) atribuídos a forças impessoais tais como: demônios, criação, instituição e outras – que na verdade é uma forma básica de atribuir a responsabilidade a outrem – então a essência da Boa Nova – a graça – fica sem sentido.

Porque, se eu posso ser bom e me achegar a Deus sozinho – de que me serve a graça? O pelagianismo – doutrina de Pelágio, monge britânico que debateu ardentemente com Agostinho,  pregava entre outras heresias surgidas por volta de 411 e condenadas em concílios por muitas autoridades desde 418, que (3):

A - A tudo o que Deus criou é bom e assim sendo a natureza criada não pode ser mudada em sua essência;  
Pelágio extrapola sua visão de livre arbítrio, defendendo que o homem se encontra como em uma “tabula rasa”. Assim sendo ele não tem mal em si, e é sempre “puro” para tomar as decisões sem nenhuma predisposição. Deus criou Adão com livre arbítrio e toda a criação pós queda também tem. Há contradição desde o início, pois a ideia de tabula rasa não pode suportar alguém com boa inclinação. Ou é rasa ou é inclinada ao bem.

B – a natureza humana é inalteravelmente boa; O comportamento é modificado, quando a pessoa peca. Mas sua natureza não mudou na queda e nem muda pós queda. A natureza humana é inalteravelmente boa.
Ou seja, segundo ele, somos pecadores porque pecamos e não o contrário. A ação muda a natureza e não a natureza que impulsiona a ação.

C – o mal é um ato que nós podemos evitar; O pecado é sempre um ato, nunca uma natureza. O homem, mesmo o ímpio, pode evitar o pecado com o exercício de sua vontade – naturalmente boa.
Óbvio que o homem deve evitar o pecado. Mas antes da regeneração, sua natureza carnal milita e o vence. O peixe naturalmente vive na água. Não é obrigado a viver nela, mas é contra sua natureza sair dela, o que faz disso uma obrigação. Igualmente, a natureza má do homem decaído o faz naturalmente e livremente agir de acordo com essa natureza.

D – A descendência de Adão não herdou dele a morte natural; nós não herdamos nem a morte natural nem a morte espiritual de Adão.
A lógica dele é quem peca morre – mas não houve um pecado que encerrou toda a humanidade em uma morte espiritual – e física. Isso traz um grande problema, como veremos no próximo ponto.

E – todos os homens são criados como Adão antes da queda; na cabeça de Pelágio, se o pecado original tornou todos pecadores, Deus é injusto e o autor do pecado. E se Cristo era homem e a humanidade era má, logo Jesus era pecador e não podia nos redimir.
Quando retira toda a conexão entre o pecado de Adão e o nosso, Pelágio cria um problema insolúvel com as epístolas de Romanos e 1 e 2Coríntios. Pois se não morremos pela morte do primeiro Adão, como morreremos com o Segundo Adão (Cristo) e com Ele ressuscitaremos? Se a morte física e espiritual não foi herança adâmica, como sustentar que o perdão e justificação são uma herança vicária através de Cristo? Sobre Cristo ser pecador e Deus injusto, não vou nem discutir, pois a retórica pseudo humanística utilizada por Pelágio e seus seguidores não tem base bíblica, sendo fruto de especulação humana.

F – a graça de Deus facilita a bondade, mas não é necessária para se alcançá-la; Para ele a graça nos ajuda a chegar a um estágio de “perfeição”. Mas ela não é necessária para que alcancemos justiça e o homem pode – e deve – ser bom, mesmo SEM a graça.
Não consigo comentar. Apenas cito Paulo em Efésios 2.8: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” e Hebreus 2.3: “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação”.

G- Cristo trabalha principalmente pelo seu exemplo; a principal obra de Cristo, segundo Pelágio, foi nos fornecer um exemplo. O ponto cerne de Pelágio é a “inconversibilidade” do ser humano. Ora, se ele foi criado bom, permanece bom, logo será sempre bom.
Acendam a fogueira! Devo dizer que sua linha de pensamento é lógica, porém, radicalmente errada. Se o homem não é mau, não precisa – nem pode se converter – assim sendo a única utilidade de Cristo é um mero “bom exemplo”; soa igual a muita baboseira chamada de “evangelho” que é dita nos dias atuais! Há um pseudo-evangelho - humanista e anticristão em sua essência, que afirma que Jesus é apenas um ótimo exemplo moral (algo que ninguém conseguiria negar) - mas, apenas isso. Em última estância, não precisamos de um salvador – contrariando integralmente a Bíblia.

H – a graça é dada de acordo com a justiça e mérito. Graça não é benefício adicional, ou seja, ela é merecida.
Na estranha bíblia de Pelágio devia faltar a epístola aos Efésios (2.1-9): “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus; Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie”.

Talvez muito se escandalizem com essas premissas. Mas o triste é que “se alimentam” delas, pois são servidas sutilmente, com temperos especiais, domingo após domingo – de sorte que de tão saturados, não compreendem o erro em que laboram.

O pelagianismo foi decretado como heresia em vários concílios. Mas uma versão mais tênue,  chamada de semipelagianismo – mas nem por isso menos errôneo e muito mais mortal por sua sutileza – foi adotada pela Igreja pré Reforma, quando Roma ainda dava as cartas. Foi contra o semipelagianismo – adotado por Roma, que os reformadores lutaram. Interessante notar que a maioria evangélica é semipelagiana, e, ainda assim, vive a criticar a igreja Católica Romana (apesar de ela mesma ter evoluído do semipelagianismo medieval) e tentando fazer prosélitos a partir dela; não observando que a doutrina da salvação é praticamente igual em ambas. Esta é uma boa razão para um retorno ao padrão da Reforma e para o estudo do sola Gratia.  

E com muita dor digo isso, a grande maioria dos arminianos que converso, são inconsistentes em sua cosmovisão. Tem muito pouco de Armínio, e sobra Pelágio em suas bases doutrinárias. Antes fossem profundos arminianos. E antes que alguém diga algo do tipo: "eu não sou de Calvino, nem de Armínio; nem de Pelágio, nem de Cassiano; eu sou bíblico" - dizer que é bíblico até romanistas, kadercistas, mórmons e testemunhas de Jeová - dizem. Ainda que não defenda rótulos, todos, sem exceção, têm alguma cosmovisão, e tem sua fé auxiliada (para o mal ou para o bem) por algum paradigma pensado por outros anteriormente.

O mote semipelagiano é: “’facienti quod in se est Deus non denegat gratiam’ (àqueles que fazem o que é possível fazer, Deus não negará a sua graça)” (4). João Cassiano, abade do monastério de Massila, foi o porta-voz do semipelagianismo (tanto que muitos chamam essa linha de cassianismo). Este condenou quase todos os erros de Pelágio, principalmente sobre a queda do homem e a necessidade da graça. Mas poderia dizer que ele “tomou banho vestido”, pois muitos erros do pelagianismo perduraram em sua defesa.

Para ele, “embora a graça de Deus seja necessária para a salvação e assista a vontade humana para fazer o bem, é o homem, e não Deus, quem deve desejar o que é bom. A graça é dada 'a fim de que aquele que começou a desejar, seja assistido', não para dar ‘o poder de desejar’”(5). Algo que não se sustenta diante de João, capítulo 3, quando Jesus ensina Nicodemos sobre novo nascimento. Jacob (ou João) Arminius bebeu desta fonte para sua teologia. Wesley e Finney também – ainda que este último retomou muito mais de Pelágio do que de Cassiano.

Se anularmos as dimensões terríveis e universais do pecado, sobra pouco de Bíblia, e nada que se possa chamar de cristianismo. Mas você pode me perguntar: as igrejas estão crescendo, o Reino tem sido expandido, a obra tem sido feita! – ao que eu pergunto: será? Vejamos os avivamentos baseados no semipelagianismo, onde o sistema de apelos começou a vigorar. Observe certo comentário de Finney:

“Nada existe na religião além das forças comuns da natureza. Ela consiste inteiramente do justo exercício das forças da natureza. É isso e mais nada. Quando a humanidade se torna religiosa, não é que ela seja capacitada para práticas que antes era incapaz de exercer. As pessoas só se valem de forças que já tinham antes, de forma diferente, e usam-na para a glória de Deus” (6).

Daí podemos observar duas coisas: 
1 a necessidade do novo nascimento para poder VER  o Reino, dita por Jesus no capítulo 3 de João perde o sentido; 
2 as práticas, técnicas e “pregações” de auto-ajuda não nos devem surpreender, já que segundo Finney, a salvação é buscar as “forças que já tinham(os) antes”. Ele modifica o caráter transcendente da salvação – algo feito por Outro para nós, para algo imanente – uma busca interior para se encontrar Deus.

Assim, Finney diz que sobre os reavivamentos que surgiram em seu ministério: “não é milagre, nem depende de milagre, em qualquer sentido. É um resultado puramente filosófico do uso certo dos meios constituídos – tanto como qualquer outro efeito produzido pela aplicação de meios” (7). Para Finney, o êxito do evangelista depende unicamente do emprego de “estímulos poderosos” (8). Não surpreende os métodos de evangelismo pouco heterodoxos defendido pelas massas semipelagianas; muito menos as técnicas para se encher igrejas.

A expressão “cuspir no prato que comeu” toma forma prática neste enredo, já que professas igrejas que surgiram da divisão resultada pela tentativa de Reforma, defendem posições semelhantes às Romanistas. Mas há um agravo, segundo Sproul: “Devemos reconhecer, para fazer justiça a Roma, que as convicções de Finney teriam sido condenadas não só pelos reformadores, mas também pelo magisterium católico romano, como uma negação das doutrinas bíblicas de pecado e de graça” (9). Lamento que isso não ocorra com a maioria das professas igrejas evangélicas, onde enxergam em Finney um herói e exemplo a ser (e é) seguido.

O esquecimento do sola Gratia se reflete de duas maneiras na Igreja hoje. Primeiramente a conclusão lógica: se eu posso ajudar no processo de minha salvação, e a graça só me assiste, logo não é somente a graça que me salva, mediante a fé. Portanto, o caráter sobrenatural da salvação se perde. Essa é a diferença básica entre monergismo e sinergismo. Sendo sinergistas, ou seja, crendo que a salvação é uma cooperação entre Deus e o homem, teríamos então que nos gloriar EM NÓS pela nossa salvação; pois ela não depende mais somente de (da graça) Deus.

Pergunte a qualquer cristão professo como ele é salvo. A maioria nem saberia dizer. Alguns mais esclerecidos diriam: "pela fé ou pela graça"; e se os apertarmos obteremos uma resposta: "pela fé na graça divina". Aqui se descobre a contradição. Porque o problema é que na prática o pensamento não é desenvolvido bem assim, dando lugar há uma liberdade encontrada apenas por uma visão humanista decaída – e não bíblica. O correto para um semipelagiano seria dizer: sou salvo pelo meu mérito em crer, e pela graça que me auxiliou a crer – no sacrifício de Cristo. Parece pouca coisa, mas não é. Deus, que é zeloso de sua glória, dividiria tamanha obra? Estaria Paulo tão errado assim? Calvino chama de absurdo, irracional e insano qualquer tipo de conceito criado pelo homem para depreciar a esta glória divina. Tenho de concordar com ele.

Se Paulo afirma que “pela graça sois salvos” – é pela graça, não por mim, não pelo auxílio da graça, mas SOMENTE ATRAVÉS DELA. Ora e graça é favor imerecido – e nisso todos concordam, se eu faço por merecer, se eu colaboro já não é merecido, mas uma dívida. Ainda que alguém levante a questão da responsabilidade humana na salvação – a qual não nego – ainda digo que é somente pela graça e somente pela fé. Sem ajuda ou cooperação. Paulo afirma que: “pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie”. Tanto o pelagianismo quanto o semipelagianismo caem por terra neste ponto. Santo Anselmo faz uma solene advertência útil aqui: “Vocês não consideraram ainda a enormidade de seu pecado”. Até compreender o quanto o pecado afronta a Deus, tenderemos a nos achar bons, merecedores da graça e orgulhosos o suficientes para crer que ir à Ele partiu de nós, e não humildes para aceitar que Ele veio amorosamente até nós.

Em segundo lugar o esquecimento do sola Gratia se reflete da seguinte forma: se não temos a percepção do pecado e do estado em que nos encontramos sem Cristo, não há necessidade da graça do perdão divino. Se uma pessoa “se sente só extraviada, infeliz, não-realizada e fraca, um evangelho que ofereça uma assistência infundida já é suficiente” (10). Não é o que temos visto? O evangelho "que funciona", onde só o exterior (curas, prosperidade, entre outros) recebe atenção, enquanto o interior das pessoas continua morto. Um evangelho individualista, utilitarista, meritatório, desenvolvido por escambos. Isso tem de parar.

Cabe uma pergunta – e a ênfase no pecado? O que aconteceu com ele? Não esqueçamos de Santo Anselmo: “Vocês não consideraram ainda a enormidade de seu pecado”. Até que Deus venha a nós, enós nãoiremos à Ele! Se Cristo defendendo uma prostituta regenerada disse que há quem muito é perdoado, muito ama – quem sou eu para diminuir meu estado pecaminoso? Se o objetivo da salvação é glorificar a Deus, porque diminuiria eu sua glória tentando tomar um quinhão dela que não me pertence? Basta-me o perdão. A glória é dEle!

A Graça faz sentido e glorifica a Deus quando é preservado o caráter sobrenatural e amoroso dAquele que a deu a pessoas não merecedoras. Graça não é prêmio. O prêmio da soberana vocação é gozar da glória eterna de Deus, e para este fim é-nos dada à imerecida graça. Urge dizer que muitos alegam serem herdeiros da Reforma, mas nem bastardos dela são, pois não têm o seu DNA.

“A Reforma insistia nesse conceito teocêntrico, exaltando a eleição divina contra o livre-arbítrio e o descer divino contra o ascender humano em todas as suas formas” (11). O que separa uma igreja semipelagiana do catolicismo romano medieval – quando muito – é a idolatria a ícones e o culto mariólatra – ambos sendo substituídos por outras idolatrias e cultos estranhos. Ainda que entre cristãos difiram de alguns pontos de sua crença, se de fato são filhos da Reforma, não podem divergir da reprovação de uma eleição condicional, ou seja, uma salvação onde a graça só auxilia a quem se auxilia. A obra é ação do Espírito Santo na vida do homem; e sabendo que o conceder nova vida é algo sobrenatural e do âmbito divino, biblicamente, somente o monergismo se sustenta.

“Portanto” – diz Horton – “se estamos realmente convencidos da justeza da crítica que a Reforma fez a Roma medieval, também não podemos mais aceitar a doutrina arminiana dentro dos círculos protestantes” (12). Todo e qualquer sistema que deixa de honrar suficientemente a graça de Deus, deve ser também rejeitado, continua Horton. Se a verdade bíblica nos convence de algo, a rejeição da ideia contrária faz-se necessário por uma questão de obediência e consciência. Não retornemos aos princípios errôneos do Romanismo medieval! Juntemo-nos a Paulo, que afirmou em Romanos 6: “Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra”. Horton finaliza seu texto sobre a graça com uma advertência excitante, porém desanimadora para alguns, a qual reproduzo para finalizar esta reflexão: “Defender sola Gratia em nossa época certamente não será menos difícil para nós do que foi para os reformadores” (13).


Veja mais aqui:  Reforma Protestante
Refrências:
(1) SPROUL, Robert Charles – Eleitos de Deus – Editora Cultura Cristã, p. 76;
(2) DORT, Os Cânones de – Editora Cultura Cristã, p. 34;
(3) utilizo aqui uma série de referências diretas, paráfrases e tópicos da obra SPROUL, Robert Charles – Sola Gratia - A controvérsia sobre o livre-arbítrio na história – Editora Cultura Cristã, pp. 29-43;
(4) HORTON, Michael S. in Reforma Hoje – Uma Convocação Feita Pelos Evangélicos Confessionais – BOICE, James Montgomery & SASSE, Benjamin (editores) – Cultura Cristã, p. 115;
(5) SPROUL, – Sola Gratia, p. 73 – com citação de SEEBERG R. – Text-Book of History of Doctrines, vol. 1, p. 369;
(6) FINNEY, Charles – Revivals of Religion apud HORTON, in Reforma – BOICE & SASSE, p. 116;
(7) Idem, p. 116-117;
(8) Idem, p. 117;
(9) Idem;
(10) HORTON, in Reforma – BOICE & SASSE, p. 116;
(11) Idem, p. 117;
(12) Idem;
(13) Idem, p.118.

Ave Crux, Unica Spes! 

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